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domingo, 5 de julho de 2009

Morte e Vida Severina: Esperança, Destino e Pobreza

Todos os brasileiros têm um pouco de Severino, uns com morte “morrida”, outros com morte “matada”, porém todos com vida sofrida. Qual o destino que os espera quando a morte insiste em fazer companhia? Um destino Severino? Isso é pouco e a ânsia de mudar e vencer impulsiona cada Severino a ir à frente, mesmo tendo como guia um rio forte que ao longo do caminho se enfraquece e se entrega aos violentos sintomas da seca que tudo mata no Agreste nordestino, sintomas que levam a uma “morte severina”, que não poupa nem os símbolos das vitorias de cada dia. Como firmar os símbolos de fortaleza da vida e se opor a um destino pré-estabelecido? Em Morte e Vida Severina encontramos um retirante que não aceita sua sina e, contrariando sua própria natureza, segue sua vida.

Severino encontra-se com a morte da mesma forma que se encontra com uma emboscada, com a natureza e com os velórios-funerais de lavradores. E até na procura de trabalho há mortes embutidas, já que catar migalhas não é digno. E a retirada de Severino não é por cobiça, mas pela defesa da vida, o que envolve esperança. Movido por essa esperança ele se dirige a uma mulher em busca de trabalho e descobre que tudo o que sabia fazer não tinha nenhuma serventia. Ali só lucra a morte e os que a cercam: o médico, os coveiros, as carpideiras, as rezedeiras, o farmacêutico. Quando a morte se vulgariza impõe o destino e aniquila esperanças. Mesmo na Zona da Mata, Severino vê que as restrições e as dores seriam as mesmas e a cova será a única parte a que teria direito neste latifúndio. Dizem os coveiros: "Estamos seguindo o próprio enterro, é o cemitério que nos espera no Sertão". Este é o único destino final, que é certeza para todos os severinos. Ainda que a esperança imprima a busca por um trabalho (duro, mas que permita a subsistência), o que Severino vai encontrando é o desespero. Não há mais diferenças entre a vida e a morte, motivo pelo qual ele então se pergunta: por que não saltar do alto da ponte? Mas aí a vida (ou seria a morte?) responde com o habitual cinismo reservado aos miseráveis: nasce um filho... Um clima de euforia se estabelece com o nascimento, e ciganas vêm para ler o "futuro" do menino. Videntes estas que, movidas bem mais pela esperança que pelo visionarismo, prevêem que, quando o menino crescer irá trabalhar em uma fábrica, morar num lugar melhor... E aí Severino conclui que uma vida vale a pena ser defendida.

Analisando o contexto histórico em que a obra foi concebida, encontramos um Brasil onde a pose era atribuída a quem tinha o poder de fogo e assim como aconteceu com o “Severino Lavrador”, morto a bala por ter um hectare de terra de pedra e areia lavada, acontecia com os pequenos proprietários no Brasil onde anda não se discutia as questões da reforma agrária, mas já apresentava grandes atenuantes para a mesma. O executor de “Severino Lavrador” é ocultado pelos “irmãos das almas” e isso de deve ao fato do ato cometido, ser um ato comum onde a Caatinga é mais seca. A vida lhe foi tirada, apenas pelo fato do expansionismo acerbado, comum na década 50.

Assim como na Constituição Federal de 1988, o direito a terra também estava garantido na constituição de 1946 no art. 156 que diz: “A lei facilitará a fixação do homem no campo, estabelecendo planos de colonização e de aproveitamento das terras pública. Para esse fim, serão preferidos os nacionais e, dentre eles, os habitantes das zonas empobrecidas e os desempregados.” No inciso 1º do mesmo artigo, a constituição diz: “Os Estados assegurarão aos posseiros de terras devolutas, que nelas tenham morada habitual, preferência para aquisição até vinte e cinco hectares.”, e no inciso 3º “Todo aquele que, não sendo proprietário rural nem urbano, ocupar, por dez anos ininterruptos, sem oposição nem reconhecimento de domínio alheio, trecho de terra não superior a vinte e cinco hectares, tornando-o produtivo por seu trabalho e tendo nele sua morada, adquirir-lhe-á a propriedade, mediante sentença declaratória devidamente transcrita.” O direito a terra, era um direito garantido aos que tinha uma “vida severina”, porém há de se considerar que os severinos não tinham o poder de fogo dos grandes latifundiários e quando os mesmo ousavam conhecer tal poder, a história do “Severino Lavrador” tendia a repetir-se. O retrato do Brasil no qual está inserido o Severino de João Cabral é o Brasil dos coronéis, onde o direito se fazer valer por aqueles que detinham o poder de fogo.


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2 comentários:

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Trabalho bonito, muito bem feito. Legal colocar isso aqui, confirma a grande qualidade do seu blog e leva informação adiante. Eu queria que as pessoas gostassem um pouco mais do João Cabral de Mello, a maioria nem conhece...
Bom, aqui valorizasse é o futebol...
Beijos,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

Leo Carioca disse...

Confesso que não vi o filme ´Morte e Vida Severina`.
Mas já li o livro.