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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Encontros de Carnaval

- Eu já fiquei com você - disse a meretriz depois que me deu o primeiro beijo.

- Comigo? Onde ficamos? - perguntei assustado.

- Isso não vou lembrar - respondeu como responderia qualquer outra meretriz.

- Como você se chama? - perguntei enquanto tirava sua peruca.

- Diego e você, como se chama? - perguntou me dando outro beijo.

- Marcos... agora eu me lembro de você, ficamos numa rave.

O encontro na rave tem mais de 5 anos, foi em Sorocaba, numa festa predominantemente hétero. Eu lá estava com os meus amigos, quando vi um cara bonito e barbudo parado, me olhando. Ele foi se aproximando aos poucos, veio por trás e disse ao pé do meu ouvido:

- Que sorte encontrar um ursão desses por aqui - disse enquanto eu virava para o beijar.

- E eu pensando que não rolaria nada nessa festa - disse entre um beijo e outro. 

Ele me levou para área de camping, estava procurando por um barraca, senti que ele estava um pouco perdido, mas achei natural depois de tantas bebidas e talvez um alucinógeno. 

- Aqui está! - disse ele entrando na barraca.

- Que bacana, estava querendo acampar aqui, mas meus amigos não toparam - respondi enquanto ele me puxava para dentro da barraca. 

O sexo rolou ali mesmo, dentro da barraca, ao som da rave e dos acampados ao redor. Transar ao som de trance e dentro de um camping, é uma experiência única e indescritível. Diego era todo peludo, era um pelo alto e macio, ele também tinha muitos pelos nas pernas, se não fosse pelo rosto, de longe seria difícil falar que ele era branco, seus pelos pretos tomavam todo o seu corpo.

- Posso saber o que significa isso? - perguntou um rapaz ao abrir a entrada da barraca.

- Se vista logo! - disse Diego enquanto subia as calças.

- O que está acontecendo? - perguntei confuso.

- Agora não posso explicar, apenas corre - e foi o que fizemos em meio as barracas, com calças caindo, bunda a mostra, sem camisetas e ao som de protestos do rapaz da barraca.

- Filhos da Puta, filhos da puta - ele gritava enquanto o pessoal das barracas davam risadas.

Depois de muito correr, nos jogamos na grama, próximo do palco das atrações, ficamos ali por alguns minutos, nos recompondo, vendo um nascer do sol maravilhoso e toda energia positiva que aquele lugar nos estavam proporcionando. Nos despedimos da mesma forma que nos conhecemos. Estava com meus amigos e ele chegou por trás e disse:

- Tchau, ursão - me envolvendo em seu peito peludo.

Só quando eu estava no meio do caminho eu percebi que não havia pego o telefone do rapaz e nem eu tinha dado o meu, mas se fosse para nos reencontramos, com certeza a vida se encarregaria de nos proporcionar novos encontros.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Trio de Muhammed

Existem algumas regras de conduta para pegação virtual que, se seguidas a risca, evitam muitos desconfortos. As mais eficientes são a "cutuca que te cutuco" e a "curta que eu curto". A probabilidade de incômodos na paquera, com a aplicação dessas regras, é quase nula.

João Vitor, experiente no ambiente virtual, aplicou as duas técnicas conjuntas com Muhammed. Meia hora depois Muhammed já havia retribuído a cutucada e as curtidas. Sem pensar duas vezes João Vitor já enviou um "olá" por mensagem instantânea e sem ter tempo de fechar a janela de bate papo, já visualizou a notificação que Muhammed estava respondendo.

Muhammed era um refugiado Sírio. Veio para o Brasil por conta de divergências políticas e sociais. Como se não bastasse a sua família ser de oposição ao Governo, Muhammed também era gay e teve que fugir do seu país para não ser morto.  João Vitor era filho de baiano com uma pernambucana, tinha uma testosterona natural dos nordestinos, mesmo nascendo em São Paulo, tinha calor correndo pelo sangue.

As conversas fluíram muito rápido, Muhammed prezava pela boa comunicação, além de ser muito desconfiado, talvez pelo fato de ter fugido de um país, onde vizinhos e familiares poderiam se revelar como o seu mais cruel inimigo.

Muhammed e João Vitor foram se conheceram no Parque do Ibirapuera. Parecia um sonho para Muhammed, finalmente ele estava em paz, seguro e com alguém que ele poderia amar. No final daquela tarde, depois de caminharem de mãos dadas pelo parque e tomaram sorvete, envolvidos pela vista do pôr do sol proporcionada pelo lago, Muhammed pediu João Vitor em namoro. João Vitor não disse sim, mas também não disse não, apenas respondeu com um beijo e disse que ele era um dos seus melhores presentes.

Foi numa das infinitas conversar que tudo ruiu, ou quase ruiu. Muhammed perguntou para o João Vitor se ele já tinha feito "trio". João Vitor sem entender o questionamento, pediu explicações, até descobrir que o "trio" se tratava de "sexo à três". João Vitor pensou em responder qualquer coisa, mas optou pela sinceridade e disse "sim". Muhammed desolado respondeu que era difícil achar alguém sério no Brasil e que todo mundo já havia feito "trio".

A imagem do "trio" não saia da cabeça de Muhammad, como ele poderia amar uma pessoa que já fez "trio"? João Vitor tentou argumentar, disse que tudo o que ele viveu o transformou naquele homem que o amava, mas Muhammad estava convicto de que homem que faz "trio" não era homem para ele.  

João Vitor fez uma proposta para Muhammed e sugeriu um último encontro e se após este encontro a imagem do "trio" ainda atormentasse a cabeça de Muhammed, cada um seguiria o seu destino e assim foi feito. 

Eles foram num motel, pois apesar de Muhammed ser resolvido, ele vinha de uma cultura muito reprimida, o sexo ainda não havia acontecido entre eles. Tudo foi louco e intenso, ambos transaram como duas cadelas no cio, parando apenas para tomarem banho e fumar um cigarro.  

Quando sairiam do motel, João Vitor perguntou se a imagem do "trio" havia saído da cabeça de Muhammed. Ele muito triste respondeu que não e que ambos deveriam ser apenas amigos. João Vitor não ficou triste, mas também não ficou alegre. Ele perdeu Muhammed, mas poderia pintar, quando chegasse em sua casa, um mapa de colorir afixado na parede do seu quarto, contornando as delimitações da Síria. A marcação seria num tom verde claro, mas a esperança de se tornar um verde escuro era muito grande

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Paqueras Liquidas

A paquera para o ser humano é o equivalente a dança do acasalamento para outras espécies, aquele momento de tudo ou nada, onde em alguns instantes saberemos se seremos ou não agraciados pela concessão da copulação com a presa almejada. 
Segundo o dicionário “paquera” significa o “ato ou efeito de paquerar, tentativa de namoro, paquerador”.

Os recursos visuais e gestuais sempre foram aliados de uma boa paquera. Dizem que ao passar por uma pessoa pela rua, quando os olhares se cruzaram, bastam apenas três segundos para ela olhar pra trás e confirmar o interesse.

Algumas paqueras servem apenas para massagear o ego, tem pessoas que passarão a vida inteira cruzando por outras pessoas nas ruas e olhando para trás, mas a ação de parar, observar e chegar no alvo, é um ato de coragem. Numa fase do ápice do amor liquido, qualquer atitude sem o recurso de alguma tecnologia, é um ato inovador. 

Após o expediente, como era de costume, Luís Fernando saiu do trabalho e foi para a faculdade. Pegava todos os dias o ônibus que seguia para as Perdizes, ali mesmo na Paulista com a Consolação. As 18h30m o movimento era intenso, vários ônibus parando no ponto, pessoas correndo para embarcar, se esbarrando com as pessoas que desembarcava. 

No meio daquele vai e vem de pessoas, Luís Fernando avistou um homem barbudo – não tanto quanto ele – parado, como se estivesse em câmera lenta, não sendo abalado pela agitação social que São Paulo passa para todos os seus filhos. Os dois se olhavam em meio à multidão, tentando descobrir um meio de se aproximarem, mas impedidos pela penetração dos olhares, que deixou ambos constrangidos. 

O ônibus do homem barbudo encostou na plataforma, Luís Fernando avistava o homem seguindo seu destino, mas preocupado com quem vinha atrás, preocupado se Luís Fernando também seguiria o mesmo destino.

Com o ônibus partindo, Luís Fernando ficou procurando o homem barbudo dentro do ônibus, o olhar que momentos antes era de esperança, transformou-se em despedida... até lembrar-se que naquela mesma tarde ele havia baixado um aplicativo de celular, esses que cruzam pessoas com localizações, onde a paquera rola de forma não presencial. Luís Fernando era o terceiro da lista, estava lá com aquela barba farta e sorriso fechado, exatamente que forma que atraiu o outro homem barbudo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Casamento, por Luis Fernando Veríssimo

O tão discutido casamento homossexual não deixa de ser uma sequência natural da longa e estranha história de uma convenção, a união solene entre duas pessoas, que começou no Éden. A Bíblia não esclarece se Adão e Eva chegaram a se casar, formalmente. Deve ter havido algum tipo de solenidade. 

Na ausência de um padre, o próprio Criador, na qualidade de maior autoridade presente, deve ter oficiado a cerimônia. No momento em que Deus perguntou se alguém no Paraíso sabia de alguma razão para que aquele casamento não se realizasse, ninguém se manifestou, mesmo porque não havia mais ninguém. A cerimônia foi simples e rápida apesar de alguns problemas — Adão não tinha onde carregar as alianças, por exemplo — e Adão e Eva ficaram casados por 930 anos. E isso porque na época ainda não existiam os antibióticos. 

Mais tarde, instituiu-se o dote. Ou seja, as mulheres, como caixas de cereais, passaram a vir com brindes. O pai da noiva oferecia, digamos, dez cântaros de azeite e dois camelos ao noivo e ainda dizia: 

— Pode examinar os dentes. 

— Deixa ver... 

— Da noiva não, dos camelos! 

Houve uma época em que os pais se encarregavam de casar os filhos sem que eles soubessem. 

Muitas vezes, depois da cerimônia nupcial, os noivos saíam, ofegantes, para a lua de mel, entravam no quarto do hotel, tiravam as roupas, aproximavam-se um do outro — e apertavam-se as mãos. 

— Prazer. 

— Prazer. 

— Você é daqui mesmo? 

Eram comuns os casamentos por conveniência, pobres moças obrigadas a se sujeitar a velhos com gota e mau hálito para salvar uma fortuna familiar, um nome ou um reino. Sonhando, sempre, com um Príncipe Encantado que as arrebataria. O sonho era sempre com um Príncipe Encantado. Nenhuma sonhava com um Cavalariço ou com um Caixeiro Viajante Encantado. 

Mais tarde veio a era do Bom Partido. As moças não eram mais negociadas, grosseiramente, com maridos que podiam garantir seu futuro. Eram condicionadas a escolher o Bom Partido. Podiam namorar quem quisessem, mas na hora de casar... 

— Vou me casar com o Cascão. 

— O quê?! 

— Nós nos amamos desde pequenos. 

— O que que o Cascão faz? 

— Jornalismo. 

— Argk! 

A era do Bom Partido acabou quando a mulher ganhou sua independência. Paradoxalmente, foi só quando abandonou a velha ideia romântica do ser frágil e sonhador que a mulher pôde realizar o ideal romântico do casamento por amor, inclusive com o Cascão. Só havendo o risco de o Cascão preferir casar com o Rogério.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Recaída

Certa vez, perguntaram no meu trabalho se eu sou realmente gay. Respondi que era apenas de segunda à sexta e no horário comercial, pois no meu trabalho lido com a questão LGBT. Lendo a crônica "Recaída", de Luis Fernando Veríssimo, me recordei do episódio.

...

Recaída

A proposta era simples. Cláudia acompanharia João Carlos numa visita à casa dos seus pais, na cidadezinha onde nascera, e seria apresentada como sua namorada. Alguém o tinha visto no Rio e chegara à cidadezinha com a notícia de que ele era gay. Ele precisava provar que não era gay. 

Mas você não tem uma namorada de verdade? - perguntara Cláudia 

- Por que eu? 

Porque eu sou gay. Não tenho namorada. Tenho namorado. O nome dele é Roni. Não posso aparecer lá com o Roni. 

Mas ninguém liga pra isso, hoje em dia. Liga? 

Na minha cidade, na minha casa, ligam.

...

Cláudia hesitara. Quase não conhecia João Carlos. A ideia de passar o Natal e o ano-novo com um quase desconhecido, na casa de uma família totalmente desconhecida, numa cidadezinha inimaginável, não a atraía. Se bem que... Poderia ser divertido. O João Carlos não era antipático. E os dois se fingindo de namorados, enganando todo o mundo... Ela não tinha outros planos para o fim do ano. Nenhum desfile agendado. Seria divertido. Topou. 

No aeroporto, antes de embarcarem, João Carlos se despediu de Roni com um beijo prolongado e disse para ele não se preocupar. 

Não vá me ter uma recaída... - disse Roni, indicando Cláudia. 

Pode deixar - disse João Carlos. - Não há perigo. 

Os três riram muito.

...

Ao churrasco na casa dos pais de João Carlos, na primeira noite, veio gente de toda a região, parentes e amigos e até alguns que ninguém conhecia, para ver a namorada carioca. A notícia de que Cláudia era, além de carioca, uma bela mulher, uma modelo, se espalhara rapidamente e todos queriam vê-la, e ouvi-la, e dizer "O Joãozinho, hein? Quem diria". Os dois tinham dormido em quartos separados, João Carlos no seu quarto antigo, Cláudia com a irmã dele. A mãe do João Carlos, que via novela e sabia que aquilo era comum, não se importaria se os dois dormissem juntos, mas "O seu pai, sabe como é...". Eles sabiam como era. Não dormiam juntos, mas passavam o tempo todo se acariciando e se beijando, em casa e na rua. Provando para a cidade inteira que aquele boato de que o João Carlos tinha desandado no Rio era invenção, pura invenção. Gostava de mulher. E, a julgar pela Cláudia, gostava de grandes mulheres!

...

Foi na noite de ano-bom, depois de muito frisante no clube, depois de se abraçarem e se beijarem apaixonadamente à meia-noite para todos verem, que os dois chegaram em casa e não foram cada um para o um quarto, foram para o quarto do João Carlos, quem diria, onde se amaram durante toda a madrugada, tentando não fazer muito barulho. E de manhã, suas pernas ainda entrelaçadas com as de Cláudia, João Carlos lamentou o acontecido, e disse "Bem que o Roni me avisou...", e a Cláudia beijou a ponta do seu nariz e disse: Pronto, pronto.

...

Voltaram para o Rio no dia 2, o João Carlos silencioso no ônibus e no avião, com cara de culpa, depois de pedir à Cláudia que em hipótese alguma comentasse a sua recaída para quem quer que fosse senão o Roni ia acabar sabendo, e a Cláudia silenciosa, com o secreto orgulho de ser tão desejável, tão mulher, que provocara a recaída fatal do João Carlos, depois de prometer que não contaria nada a ninguém, que aquilo ficaria entre os dois, só entre os dois, para sempre.

...

Ainda ontem a Cláudia encontrou o Roni e perguntou pelo João Carlos e o Roni disse: 

Quem?! 

O João Carlos. Seu namorado. 

Ah, é. Está bem. Muito bem. Quer dizer. Olha aqui... Esse negócio de namorado... 

Você também mal conhecia o João Carlos. Não é? 

É. Eu... 

Ele pediu para você fingir que era o namorado dele. 

É 

O seu nome nem é Roni. 

Não. 

Cláudia sorriu. Pensando: se o João Carlos tivesse me pedido, honestamente, sem mentir, sem encenação, topa ou não topa, eu teria topado? 

Provavelmente não. Uma mulher como eu? Provavelmente não. 

O falso Roni tinha chegado mais perto e estava dizendo: 

Olha, eu também não sou gay. E se quiser, posso provar. 

Cláudia se afastou, ligeiro. Pensando: ô raça, essa masculina!