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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Trio de Muhammed

Existem algumas regras de conduta para pegação virtual que, se seguidas a risca, evitam muitos desconfortos. As mais eficientes são a "cutuca que te cutuco" e a "curta que eu curto". A probabilidade de incômodos na paquera, com a aplicação dessas regras, é quase nula.

João Vitor, experiente no ambiente virtual, aplicou as duas técnicas conjuntas com Muhammed. Meia hora depois Muhammed já havia retribuído a cutucada e as curtidas. Sem pensar duas vezes João Vitor já enviou um "olá" por mensagem instantânea e sem ter tempo de fechar a janela de bate papo, já visualizou a notificação que Muhammed estava respondendo.

Muhammed era um refugiado Sírio. Veio para o Brasil por conta de divergências políticas e sociais. Como se não bastasse a sua família ser de oposição ao Governo, Muhammed também era gay e teve que fugir do seu país para não ser morto.  João Vitor era filho de baiano com uma pernambucana, tinha uma testosterona natural dos nordestinos, mesmo nascendo em São Paulo, tinha calor correndo pelo sangue.

As conversas fluíram muito rápido, Muhammed prezava pela boa comunicação, além de ser muito desconfiado, talvez pelo fato de ter fugido de um país, onde vizinhos e familiares poderiam se revelar como o seu mais cruel inimigo.

Muhammed e João Vitor foram se conheceram no Parque do Ibirapuera. Parecia um sonho para Muhammed, finalmente ele estava em paz, seguro e com alguém que ele poderia amar. No final daquela tarde, depois de caminharem de mãos dadas pelo parque e tomaram sorvete, envolvidos pela vista do pôr do sol proporcionada pelo lago, Muhammed pediu João Vitor em namoro. João Vitor não disse sim, mas também não disse não, apenas respondeu com um beijo e disse que ele era um dos seus melhores presentes.

Foi numa das infinitas conversar que tudo ruiu, ou quase ruiu. Muhammed perguntou para o João Vitor se ele já tinha feito "trio". João Vitor sem entender o questionamento, pediu explicações, até descobrir que o "trio" se tratava de "sexo à três". João Vitor pensou em responder qualquer coisa, mas optou pela sinceridade e disse "sim". Muhammed desolado respondeu que era difícil achar alguém sério no Brasil e que todo mundo já havia feito "trio".

A imagem do "trio" não saia da cabeça de Muhammad, como ele poderia amar uma pessoa que já fez "trio"? João Vitor tentou argumentar, disse que tudo o que ele viveu o transformou naquele homem que o amava, mas Muhammad estava convicto de que homem que faz "trio" não era homem para ele.  

João Vitor fez uma proposta para Muhammed e sugeriu um último encontro e se após este encontro a imagem do "trio" ainda atormentasse a cabeça de Muhammed, cada um seguiria o seu destino e assim foi feito. 

Eles foram num motel, pois apesar de Muhammed ser resolvido, ele vinha de uma cultura muito reprimida, o sexo ainda não havia acontecido entre eles. Tudo foi louco e intenso, ambos transaram como duas cadelas no cio, parando apenas para tomarem banho e fumar um cigarro.  

Quando sairiam do motel, João Vitor perguntou se a imagem do "trio" havia saído da cabeça de Muhammed. Ele muito triste respondeu que não e que ambos deveriam ser apenas amigos. João Vitor não ficou triste, mas também não ficou alegre. Ele perdeu Muhammed, mas poderia pintar, quando chegasse em sua casa, um mapa de colorir afixado na parede do seu quarto, contornando as delimitações da Síria. A marcação seria num tom verde claro, mas a esperança de se tornar um verde escuro era muito grande

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Sobre o musical do Chaplin e Canalização de Energias

Semana passada, assisti a reestreia do “Chaplin – O Musical”, no Teatro Procópio Ferreira. A obra de Marcos Rey, adaptada por Miguel Falabella, tem como protagonista Jarbas Homem de Melo, interpretando Chaplin, que conta a trajetória de sucesso de um dos maiores artistas do cinema, abordando desde a sua infância, sua origem humilde e pobre, mostrando seus conflitos com um lar desestruturado e ressaltando sua forte amizade com seu irmão mais velho, Sidney, interpretado por Marcelo Antony.

Sidney teve papel fundamental na carreira de Chaplin, iniciaram suas trajetórias artísticas em Londres, até que Chaplin recebe um convite de uma produtora de filmes de hollywood e Sidney dividido entre sua mãe, que sofria de Alzheimers e a carreira e amizade com o irmão, acaba escolhendo ficar em Londres com a mãe .

O musical, com canções originais do autor Christopher Curtis e alguns versões para a produção brasileira, retrata de uma forma envolvente a forma com que Chaplin abdicou de toda sua vida, e nome do sucesso, não hesitando em deixar sua mãe em uma clínica médica, para viver do outro lado do continente. Posteriormente, com sua carreira artística consagrada, Chaplin recebe uma visita surpresa de Sidney, que decide ficar nos Estados Unidos e cuidar da carreira artística do seu irmão.
Fiquei pensando sobre as escolhas que fazemos e até que ponto realmente vale a pena se abdicar de tudo em nome de uma determinada área de nossas vidas, nossas escolhas nos definem, norteiam toda nossa vida. Chaplin optou exclusivamente pelo sucesso e para isso fez escolhas que talvez eu não as faria, como não estar presente na velhice da mãe, demitir o irmão por conta de divergências políticas e não acompanhar o momento do nascimento do seu filho, que logo após ao parto veio a falecer.

Existem áreas nas nossas vidas que acabam sendo nossos pilares de sustentação, onde canalizamos as energias que nos norteiam, porém temos que tomar cuidado para não nos centrarmos em apenas um eixo, como ficou bem evidente no musical do Chaplin, que canalizou todas as suas energias para sua vida profissional.

Eu tenho basicamente duas áreas da minha vida que precisam sempre estar bem trabalhadas, quando uma das duas não estão bem, percebo que todas as outras também acabam ficando mal. Dosar a importância e as expectativas que jogamos para as diversas áreas é uma tarefa árdua e diária, precisamos estar bem no conjunto, para ter uma vida plena e feliz.

Serviço: 

Chaplin - O Musical
Teatro Procópio Ferreira: Rua Augusta, 2823 - Informações: 3083-4475
De 05/09 à 18/10 - quintas e sextas, às 21h, sábados, às 17h e 21h e domingos, às 16h e 20h
De R$ 25 a R$ 200

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O Ravengar da minha infância

O grande papel da arte é nos sensibilizar, mexer com o nosso imaginário, muitas das vezes criando outra realidade. Quando eu era criança, na época que a novela "Que rei sou eu?" era exibida, morava um homem na minha rua que se parecia muito com o Ravengar, personagem de Antônio Abujamra, pai do Clayton, meu melhor amigo.

Eu tinha uma rotina muito definida. Dormia muito cedo, para acordar às 6 da manhã, assistir Vovó Mafalda, Jaspion, Power Rangers e Thundercats. Depois ia pra rua e passava na casa do Cleyton, filho do "Ravengar", na maioria das vezes ficávamos brincando na casa dele e as vezes chamávamos os outros meninos para brinca também. Nos dias que eu não passava na casa do Clayton, ele sempre passava na minha.

Nessa época tive que militar no Movimento LGBT pela primeira vez, os meninos da rua me chamavam de "Marcos Bicha", eu reclamei e de forma muito natural eles justificaram que era pelo fato de ter outro Marcos na mesma rua e que ele morava lá antes de mim e por isso ele tinha o direito de ser chamado de Marcos.

Fiquei alguns dias sem sair na rua, o apelido me incomodava. Como pedido de desculpas, todos os meninos se reuniram e foram me chamar em casa. Falaram que iriam me chamar de "Marcos da Esquina". Achei melhor, mas se fosse hoje eu também questionaria. Nunca fiz ponto na esquina para me chamarem assim.

Hoje, refletindo sobre o assunto, percebo que a minha relação com o Clayton era muito conturbada. Brigávamos muito e depois das brigas eu sempre ia pra minha casa e as vezes a mãe dele ia me chamar, falava que nos éramos amigos e não podíamos brigar. Ela pedia para eu ir lá na casa dela, fazer as pazes e pedir para ele sair debaixo do carro. Ele saia e íamos brincar novamente. Só teve um vez que entramos em confronto corporal, quando ele me chamou de "Filho da Puta".

Sempre que ia na casa dele, ia embora quando o pai dele chegava. Tinha muito medo. Enxergava aquele homem como o próprio Ravengar. Na maioria das vezes ia correndo, chegava em casa cansado e gritando "Ravengar, Ravengar". Minha mãe mandava eu parar de ser besta, dizendo que ele não era o "Ravengar".

Me mudei de Santo André ainda muito pequeno, com uns 12 anos, nunca mais vi o Clayton, mas a morte do ator e diretor Antônio Abujamra me trouxeram essas maravilhosas lembranças, provando que ele cumpriu sua missão como artista, mexendo com o imaginário de pessoas de todas as idades.

domingo, 13 de abril de 2014

Love is All You Need?

O filme já é antigo, mas conheci recentemente. O curta conta a história de Ashley, uma jovem adolescente que fruto da “família americana perfeita” nos subúrbios da Califórnia – com duas mães, dois vovôs, dois tios e um irmão mais novo. Mas Ashley tem um problema – ela tem uma queda por um garoto na escola, que é contra tudo o que este mundo já lhe ensinou.

Ashley vive em um mundo onde os termos “gay” e “hétero” são trocados, esta jovem tem que enfrentar o fato de que ela é em hétero em um mundo gay. Esta atração incontestável para o sexo oposto faz com que ela seja alvo constante de abuso verbal e físico, até que ela é guiada a um fim trágico.

Este curta-metragem é o primeiro de um projeto de duas fases idealizado por Kim Rocco Shields, que também escreveu e dirigiu o filme. Vale a pena assistir e refletir. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sobre Adolescência, Conflitos e Morte

A fase da adolescência é a mais difícil de nossas vidas, lembro de muitos momentos confusos, conturbados e de questionamentos de quem eu era. Depois que tudo passa, percebemos que é uma época mágica, de descobertas que levaremos para o resto de nossas vidas.

Foi na adolescência que descobri a minha homossexualidade, que dei o primeiro beijo numa menina e depois num menino. Também foi na adolescência que tive minha primeira relação sexual, com outro adolescente e junto com essas descobertas, vieram as cobranças se aquilo que eu havia feito era correto, certo aos olhos de Deus. Foi na adolescência que vivi meu primeiro amor e minha primeira desilusão.

Na semana passada fui com minha mãe, irmã e sobrinhos para a praia, olhando para a minha sobrinha, comentei com a minha irmã: “A Larissa está naquela fase, que para nós é uma criança, para os outros é uma moça e ela não sabe quem é”, acredito que essa é a melhor definição para a adolescência. 

No dia 10 de janeiro estreio nos cinemas de todo o Brasil o filme “Confissões de Adolescentes”. Passei minha adolescência inteira assistindo o seriado que deu origem ao longa-metragem, vivi alguns dilemas apresentados no seriado, assim como todos que passam ou passaram por essa fase.

O filme é um grande acerto de marketing. Todos aqueles que viram o seriado já são adultos, alguns com filhos e sobrinhos e que provavelmente irão proporcionar a eles a sensação de assistir e vivenciar alguns dos seus sentimentos que ficaram nessa época tão conturbada para todos.


A adolescência deveria ser basicamente isso: uma fase estranha, de conflitos e sob a proteção e tutela dos pais... Nem sempre é isso que acontece. Um dia após a estréia do filme, Kaique, um adolescente gay foi encontrado morto nas ruas de São Paulo.

Kaique era apenas mais um adolescente, que deveria estar amando e odiando o mundo ao mesmo tempo, mas ele estava numa boate, num ambiente não permissivo para sua idade e nem para idade dos seus amigos. A morte do adolescente envolve um monte de mistérios, na balada, o menino havia perdido a carteira, seus amigos se separaram para ajudar a encontrar os seus pertencentes e depois disso não foi mais visto.

As oportunidades de viver todos os conflitos da adolescência foram tiradas de Kaique, talvez bem antes da sua morte. Entrei na página do Facebook da Pzá, festa onde Kaique estava antes de sua morte, e fiquei estarrecido com o que vi. Adolescentes com aparência de 12, 13, 14 anos com bebidas, num mesmo ambiente com pessoas maiores de idade.

Na internet, montaram uma página com o tema “Quem Matou Kaique?”. Kaique foi morto por todos nos, pela sociedade, pela ordem vigente. A balada onde Kaique estava, que serve bebidas alcoólicas para menores de idade, também é co-responsável pela sua morte, assim como a ausência dos seus tutores legais.  A falta de políticas públicas para a população LGBT, o veto do Kit-anti-homofobia, assim como a desconfiguração e o enterro do PLC  122 também são responsáveis pela morte do menino.

Kaique era um adolescente de apenas 16 anos, perambulando pelas ruas de São Paulo, que se tornou mais um numero nas estatísticas de violência do Brasil.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Contribua para o documentário sobre Relacionamento Aberto

Fabrício Viana, escritor e bacharel em psicologia, tem até o dia 20/08/2013 para arrecadar R$ 8 mil para a produção de um documentário sobre Relacionamento Aberto. Para que este valor seja atingido, Viana utiliza o sistema de doações do site Catarse.Me. “O site é baseado em financiamento coletivo, você entra no link do documentário, clica no botão APOIAR ESTE PROJETO e faz a doação online no valor que quiser.”, explica Viana. 

Quem doar R$ 30,00 ou mais, terá seu nome nos créditos finais do filme. Quem doar R$ 100,00 ou mais, além dos créditos no final do filme ganhará de presente um DVD do documentário autografado. Para empresas e ONGs que desejarem ter sua logomarca no início do filme e no site do documentário, poderá fazer sua doação de R$ 2.500,00 (com limite de até 6 apoiadores). 

“A ideia é que as pessoas ajudem com qualquer valor. Se você só pode R$ 5, ótimo. Se só pode R$ 10, ótimo também. E não só com grana, mesmo já tendo algumas pessoas em mente, preciso de mais contatos para entrevistar, divulgar o projeto em sites e blogs. Estou correndo contra o tempo e toda a ajuda é bem vinda.”, explica Viana. 

Para apoiar o projeto, basta entrar no site do Catarse e clicar me apoiar este projeto. Se você não quer ter seu nome divulgado, na hora do apoio, escolha a opção manter anonimato: mesmo que você se identifique durante a transação, seu nome não será exposto. Se quiser fazer sua doação sem passar pelo Catarse.Me, basta escrever diretamente para o autor. “Eu prefiro que tudo seja feito pelo site Catarse.me, pois se o valor não for atingido, a grana é devolvida e o documentário não é realizado. E eu quero muito produzir! Precisamos mostrar pra sociedade que existem outras formas de se relacionar que não seja apenas a tradicional, aprendida, reproduzida e repassada sem questionamentos”, finaliza Viana. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Minha música favorita em 2011 [Meme das Antigas - 2011]


Me apaixonei duas vezes durante esse ano. Quando tive a primeira decepção do ano, começou tocar nas rádios a música "A doida" de Seu Jorge. Lembro-me de um dia que cheguei na Secretaria e o Cássio, meu chefe perguntou:

- Gatinho, como está o fulano?

- A doida vazou - respondi.


"A doida vazou
A doida vazou
Nem quis meu amor
Nem quis meu amor"

Passou pouco tempo e conheci outra pessoa. Estava indo de boa, com calma, mas ele venho com uma pegada diferente, dizendo que queria namorar e não gostava de ficar... Namoramos quase 3 meses, até que ele disse que não rolava mais.

"Perdi
Foi clareando o dia
E eu na agonia
A banca quebrou
Ela saiu de fininho
Me negou carinho
E foi pegar o metrô"

"A doida" vazou pela segunda vez no mesmo ano. Estava no toallete do restaurante "O Gato que Ri", quando o Cássio também entrou para lavar as mãos, foi então que eu disse:

- A doida vazou, de novo.

- Sério Marcos, o que aconteceu? - perguntou preocupado.

De fato ele ficou preocupado pois na segunda história o lance tinha dito uma pegada mais especial, mas como todo Carnaval tem seu fim, esse também teve. Hoje estou feliz, pois mesmo não tendo essa história de amor na minha vida, voltamos a conversar, estamos estabelecendo uma amizade, o que considero super importante. Por conta dessas histórias, a música "A doida", de Seu Jorge, foi a que mais marcou a minha vida em 2011.




Este post faz parte do #MemeDasAntigas!!! Um balanço feito entre blogs do ano que está terminando! Quer participar? Visite este post, veja como e junte-se a nós! Não se esqueça de avisar nos comentários para que eu possa incluí-lo na lista dos participantes!

São eles: Hally Rocker do Mode On/Off, Renata Becker do Oui, Madame, André "Hipotermia" SobreiroÉrica LopesLilian do Lá no Cafofo, Ana do Organizando o Caos, Larissa Bohnenberger do O Elemento Fogo, Marcos Rodrigo do Eh Bien..., Evy do Pensamentos Perdidos, Juli_Chan do Hitomi Nyu, Cássia Alves do Busca de Sentidos, Regiane do Pequenas Coisas da Rê, Kel Sodré do Armário de Coisinhas, DaniSohDani do Só Lendo, Marcos Freitas do Passageiro do Mundo, Natalia Máximo do Caleidoscópio Dental, Mah Kaori do MahMind, Rafaela Marinho do Meus Vários Mundos, Janna do Livros Pura Diversão, Cintia Ribeiro do Free To Be Me, Nilza Borba do Pele sem Flor, Ana Carolina do Seis Milênios, Nita do Falando sobre LivrosSam Shiraishi do A Vida Como A Vida Quer, Nara do Minha Fábrica de Sonhos, Camila Batista do It's not too LateNeyara do Capsula de Banca, Lila Ricken do A Luz Difusa do Abajur LilásLetícia do A Garota e Seus Livros, Eve Ramos do Coisinhas, Mog do Mog Universitária, Angela Ernesto do Coisas Acontecem Sempre, Rogéria do Um Espaço para Chamar de Meu, Gigi do Boboquice Digital... vai comentando aí (com o link, please) que eu vou colocando aqui!

sábado, 29 de outubro de 2011

Entrevista: Fundador de grupo de ‘cura de homossexuais’ que se assumiu gay

Por William De Luca

Nada melhor do que um exemplo para refutar a eficiência de tratamentos para a conversão de orientação sexual, que dizem que gays podem se ‘converter’ em heteros. O professor de inglês, filosofia e teólogo carioca Sergio Viula, 42 anos, foi um dos fundadores do Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses), ONG evangélica que dá auxílio a pessoas que desejam abandonar a homossexualidade. Ele casou-se, teve dois filhos e viu de perto os métodos de ‘reorientação sexual’. Sergio conversou com Willian De Luca, com exclusividade, e mostra que os métodos de mudança de orientação sexual são ineficazes e causam dor e sofrimento a quem se dispõe a passar por qualquer deles.

Como começou sua vida junto à igreja evangélica? Como foi a sua entrada?

- Eu comecei aos 16 anos, numa igreja noepentecostal, mas depois migrei para a igreja batista. Eu me converti a partir da pregação de colegas, não era de família, que era católica. Hoje parte é católica e parte é evangélica.

Nessa época você já sabia que era gay? Já tinha tido relacionamentos com guris?

- Havia tido relacionamentos gays, sim, mas não assumia, eu pensava que fosse passageiro. Meu primeiro relacionamento foi aos 12 anos, com um garoto um pouco mais velho, de forma escondida, é claro, durante dois anos. Na verdade, queria pensar que tudo isso fosse passageiro, por causa das pressões em casa. Minha família era muito tradicional.

Como foi o processo de “virar ex-gay”?

- Na verdade, ex-gay não existe, é pura auto-sugestão. Eu comecei a ir à igreja e percebi que os homossexuais não tinham como lidar com suas ‘dificuldades’, por falta de orientação das lideranças, então decidi fundar o Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses), junto com João Luiz Santolin e Liane França. Foi aí que comecei realmente a dizer em momentos oportunos que era ex-gay.

Você nunca se convenceu que tinha virado ex gay? Sempre soube que estava se enganando?

- Hoje sei que estava me enganando. Na época, pensava que qualquer sentimento ou atração fosse mera ‘tentação’ e que isso poderia ser superado com oração e dedicação a deus. No grupo, basicamente, pensávamos que ser gay fosse pecado, que devia ser confessado e abandonado e para isso, fazíamos proselitismo, aconselhamento, oração, pregação, recomendávamos certos livros, leitura bíblica, coisas que os crentes geralmente fazem, mas com foco na homossexualidade, sempre demonizando a homoafetividade, infelizmente. Eu trabalhei com a igreja num total de 18 anos, o Moses começou em 1997, em 2003 eu estava fora, foram quase sete anos. Tínhamos psicólogos parceiros e contávamos com vários voluntários. Uma vez enchemos um ônibus e levamos para o Miss Brasil Gay em Juiz de Fora só para evangelizarmos os LGBT que foram ao evento, mas na diretoria eram cerca de 10 pessoas.

Mas como era esse processo de ‘abandonar o pecado’? Era como um tratamento?

– Isso não acontecia de fato, era o que se chamava discipulado, acaba sendo uma lavagem cerebral. Você tem que se isolar do seu antigo círculo de amigos, começar a se enfiar nas reuniões da igreja, fazer sessões de aconselhamento, orar, jejuar, essas coisas. Quando acontecia de alguém se envolver com outro homossexual, ele tinha que confessar o que fez, UMA LOUCURA DO CARALHO! Desculpe, mas ainda hoje tenho até raiva de lembrar disso.

Por que raiva?

– Ninguém deixava de ser gay, houve relacionamentos até dentro do grupo, entre uma atividade e outra da igreja, eles sempre arrumavam tempo pra isso. Você consegue imaginar quanto sofrimento para mim mesmo e para todos os que atuaram ou foram influenciados por esse trabalho? É irritante! E tem gente até hoje repetindo esse discurso imbecil.

O que tu sente quando vê pessoas como o pastor Silas Malafaia fazendo pregações do tipo que você fazia? É um discurso parecido?

– Ele é um idiota! Eu era um garoto quando me envolvi com tudo isso, tinha pouquíssima experiência de vida e não ainda não havia tanta informação como hoje. Agora, ele atua na base da má-fé mesmo, com interesses financeiros, projetos de poder, etc. E diz ele que nunca foi gay, será? Fico muito desconfiado de gente que gasta tanta energia e dinheiro para combater algo que não tenha nada a ver consigo mesma. Entendo heterossexuais que compreendem os riscos da homofobia, mas não entendo heterossexuais que quase surtam só por saberem que os gays estão felizes, saudáveis e produzindo para o país…

Será que não é pra ter uma bandeira atualmente? Ganhar visibilidade, sei lá…

– Não deixa de ser má-fé. Só confirma minha tese.

Quando você decidiu que era momento de parar? Você saiu do movimento ao mesmo tempo em que saiu do armário?

– Sim, saí ao mesmo tempo. Tudo aconteceu quando eu tive certeza de que já tinha feito e crido ao máximo. A gota d’água foi uma viagem a Cingapura, durante a qual conheci um filipino e fiquei com ele. Já voltei decido que iria colocar um fim nessa panacéia. Fiz isso e comecei imediatamente a repensar diversas das minhas posturas e crenças, levou ainda dois anos para que eu dissesse tudo o que digo até hoje. Houve perseguição por parte do Moses, muita gente ficou em choque, mas eles tiveram que se dobrar, pois minha atuação no movimento era grande. Minha maior projeção, porém, se dava na igreja. Eu era pastor, editor do jornal Desafio das Seitas, que teve seu auge durante minha atuação, e por aí vai…

E na sua família? Qual foi a reação?

– Houve um choque por parte dos meus pais, mas meus filhos nunca criaram problema, só ficaram perplexos, porque eu saí da igreja, já que eu era tão dedicado. Separei-me da mãe deles, mas isso não criava grandes problemas, aparentemente. Só me perguntaram francamente sobre o assunto aos 12 (ela) e aos 11 (ele). Ambos compreenderam numa boa e sempre foram meus amigos. Relacionam-se muito bem comigo e com meu parceiro Emanuel.

Você hoje se sente completo, feliz?

– Sim, hoje me sinto em paz comigo mesmo, feliz e me pergunto como pude ter suportado tanta castração inútil por tanto tempo.

Você acha que o que vocês faziam era uma violência, contra vocês mesmos, e contra os outros?

– Sim, era uma violência contra nós mesmos, por termos internalizado a homofobia que nos circundava desde cedo, e contra os outros, porque reproduzíamos essa mesma homofobia que eles mesmos já tinham internalizado. Só reforçávamos ainda mais isso.

Você não apenas largou a igreja, o movimento, como deixou de acreditar em deus… Como se deu isso?

– Isso se deu em função de questionamentos honestos e ousados sobre deus/deuses, escrituras cristãs e de outras religiões, igreja e outras instituições religiosas. Meu pensamento e atitude com relação a ideia de deus/deuses não é mero fruto de sofrimento com essa ou aquela igreja ou crença. Na verdade, muitas igrejas se abriram para mim quando saí do armário e confessaram seu interesse em que eu, não só participasse da vida da igreja, como ministrasse como pastor dela. O próprio bispo fundador da Metropolitan Community Church, Troy Perry, me disse isso pessoalmente. Também não foi por ver mau comportamento de crentes em geral, uma vez que conheço alguns que considero pessoas fantásticas até hoje (tanto do mainstream evangélico e protestante, como das modernas igrejas inclusivas). Tendo isso em mente, nem deus, nem escrituras, nem igrejas passam pelo crivo da razão, e não me refiro à razão de uma mente brilhante como a de Nietzsche, Darwin, Sartre, Hopkins, Dawkins, etc., refiro-me à razão de uma mente mediana como a minha. Não posso ir contra mim mesmo e contra aquilo que enxergo tão distintamente. No entanto, defendo a liberdade. E por isso, crer e não crer são coisas que não podem ser controladas, coibidas, exceto quando colocam os direitos humanos em xeque.

Pra terminar, o que você diria pra um jovem gay que está passando por este processo de ‘cura espiritual da homossexualidade’? Vale a pena?

– Conversão religiosa que não admite e CELEBRA sua homossexualidade não merece seu tempo e talento. Se quiser frequentar alguma comunidade, procure uma que tenha maturidade até para questionar a validade das assertivas religiosas. Mas, preferencialmente, viva sem depender de muletas existenciais quaisquer que sejam elas. Aproveito para sugerir a leitura de um post escrito por mim. Esse post nasceu do esboço de uma palestra que dei na Igreja Ecumênica de Copacabana por ocasião das comemorações do dia da Bíblia no calendário católico. Foi esse ano.

William De Luca é repórter de economia do Jornal da Paraíba. Jornalista, ativista LGBT.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dilma Troca o Movimento Gay por Palocci

Por mais que eu me esforce, não consigo entender a indignação que alguns Petistas esboçaram durante o dia. O setorial LGBT do PT deveria entender muito bem as motivações de Dilma Rousseff, pois ela é uma invenção de mal gosto daqueles que querem o poder a qualquer custo e para o movimento gay o preço é a invisibilidade social.

No auge da sua campanha para presidência, Dilma Rousseff assinou documento com líderes evangélicos onde se comprometia não levar adiante nenhuma iniciativa que afr0ntasse os “valores” da tradicional e fundamentalista família brasileira. A presidente está coerente com suas promessas e está honrando os seus compromissos ao ser contrária ao material de vídeo do programa “Escola sem Homofobia”, que vulgarmente apelidado por “Kit Gay” pelo Deputado homofobico Jair Bolsonaro.

Semana passada, participei da Marcha Contra a Homofobia em Brasília. O Planalto Central ficou completamente vermelho, com militantes adorando com veemência a imagem da Dilma, Lula, Marta e outros beatificados petistas. Marta, que também cedeu a pressões de grupos fundamentalistas e alterou o texto do PLC 122, foi recebida com euforia, a mesma Marta que anos atrás ridicularizou o movimento gay quando tentou expor a vida pessoal do seu oponente a prefeitura de São Paulo, a mesma Marta que quando prefeita pediu para a Guarda Civil Metropolitana expulsar gays da prefeitura, na ocasião que cobrava algumas de suas promessas de campanha.

Assim como o seu rosto, Marta tem uma atuação sem expressão no Senado Federal, está usando o PLC 122 como puleiro para a sua vida política e infelizmente está comprometendo o andamento do mesmo. O PT e seus aliados não tem compromisso com nada e ninguém, o único compromisso do PT é com a manutenção do poder e esse compromisso é defendido a qualquer custo, nem que para isso eles tenham que sujar as mãos de vermelho, o vermelho do sangue dos gays que dia após dia tem suas vidas ceifadas no país mais homofóbico do Mundo.

Num surto de insanidade, um membro do Setorial LGBT do PT disse que está na hora de cobrarmos do Governo Estadual de São Paulo o uso do material do “Kit anti-homofobia” que a Dilma dejetou. Pera lá! Não vamos confundir focinho de porco, com tomada, vivemos numa república federativa, onde os membros da federação são submetidos ao poder central e as escolas dessa federação são submetidas ao Ministério da Educação, braço da presidência e que pelo que vimos hoje, trabalha para o beneficio da manutenção do poder dessa presidência.

Votamos na Dilma e agora temos que engolir o Palocci, mas isso não é surpresa para ninguém, Dilma estava tão segura de si, que antes mesmo de ganhar as eleições, assombrou o Brasil com a possível volta de Palocci e Zé Dirceu. Agora fico confuso com a indignação do povo… Não era esse o projeto dela? Ela está cumprindo o que prometeu. Fomos trocados por Palocci e o governo que diz ser guardião dos direitos humanos, compactua com a homofobia desse país.

Tenho profunda tristeza de morar num país onde os direitos humanos são trocados por um visto de permanência de um Ministro corrupto, ministro que no Governo anterior já havia se comprometido com a corrupção que corre nas veias desses mais de 8 anos de governo petista. Por outro lado, tenho a sorte de morar em São Paulo, estado precursor dos Direitos LGBTs do Brasil, onde as políticas públicas ao cidadão LGBT são pautadas com respeito. Veja algumas delas:
  • André Franco Montoro, em sua gestão no Governo do Estado de São Paulo (1983-1986), foi o primeiro homem público brasileiro a instituir, de maneira sistemática, ações de combate à perseguição aos homossexuais, travestis e transexuais, bem como a seus locais de freqüência, praticas comuns na época da ditadura militar.

  • Geraldo Alckmin, em 2001, no Governo do Estado de São Paulo, sancionou a Lei 10.948, que proíbe e pune a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. Em 2006, alçou o então GRADI – Grupo de Repressão a Delitos de Intolerância a DECRADI – Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, que atua no mapeamento, controle e repressão dos grupos homofôbicos.

  • No município de São Paulo, José Serra, homem de visão, instituiu o primeiro órgão de administração pública brasileira voltado à diversidade sexual. Em seu segundo mês de governo frente à prefeitura de São Paulo, em 2005, criou a Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual.

  • Ainda em 2005, Serra decretou a criação do Conselho Municipal em Atenção à Diversidade Sexual, espaço de interlocução entre o poder público e a sociedade civil, bem como o Centro de Referência e Combate à Homofobia.

  • Como governador, Serra criou a Coordenação de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual, no âmbito da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania; instituiu o Comitê Intersecretarial de Defesa da Diversidade Sexual e o Conselho Estadual de Defesa da Diversidade Sexual e realizou a I Conferencia Estadual LGBT de São Paulo.

  • Em relação às garantias legais para a população LGBT, Serra regulamentou a Lei 10.948, e publicou decreto acerta do uso do nome social na administração pública. Para travestis e transexuais, Serra criou o Ambulatória de Saúde Integral.

  • Em 2007, Serra foi revolucionário ao reformular o Sistema Previdenciário do Estado de São Paulo, instituindo o direito à pensão ao(à) parceiro(a) e fundou o Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito, no âmbito de Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

    terça-feira, 10 de maio de 2011

    A Idade do Sucesso

    Assim como no filme “De repente 30”, imaginava que os 30 seria a idade do meu sucesso. Hoje tenho uma visão mais ampla do sucesso e confesso que ainda não conquistei o mesmo. De fato tenho muito mais do que preciso, se minha vida se encerrasse aos 30, sem sombra de dúvidas estaria num bônus que milhares e milhares de pessoas, que passaram com folga da minha idade, não tiveram.

    Passei um dia que se pudesse voltar atrás, não mudaria nada. Logo após a meia noite, já havia recebido várias mensagens de felicitações no Facebook. Logo de manhã, um amigo me ligou no celular, foi o primeiro a me desejar feliz aniversário, logo após, quando me levantei, foi a fez da minha irmã. Depois vi as centenas de mensagens que estavam no Twitter, Facebook e Orkut e durante todo o dia recebi mais ligações e mensagens de SMS.

    Passei o dia inteiro com a minha mãe, acompanhei ela até o posto de saúde, onde ela tomou vacina para a gripe, depois fui em algumas lojas e na volta almoçamos, comemos panquecas. Depois passamos numa doceria e comemos bolo e torta de chocolate.

    - Nossa, há 30 anos eu estava ganhando você – disse a minha mãe.

    - É, daqui 30 anos estarei com 60 e você com 84 – comentei.

    Sabe, chegar a terceira idade ao lado da minha mãe será o melhor presente que a vida pode me dar, não consigo traduzir em palavras o que isso significa para mim, ter essa mulher ao meu lado, durante mais um período que contempla toda a vida que eu tenho hoje.

    Se não fosse pela minha mãe, hoje eu não seria nada. Depois que nasci, ela descobriu que eu tinha uma saúde muito fragilizada e se não fosse o carinho materno nos meus primeiros anos de vida, eu não teria resistido. Sou um sobrevivente, por mais de uma vez fui desenganado pelos médicos, mas fui salvo pelo amor dessa mulher, que me ama incondicionalmente há 30 anos. Se isso não é sucesso, o que então é o sucesso?

    Não tenho tudo o que projetei, algumas lutas ainda estou travando, mas tenho tudo o que preciso, tudo o que mais quero e valorizo. Nesse último ano, a minha família provou para que veio e não tenho como negar que eles são o que tenho de mais valioso. Passei por momentos difíceis nesse ano que se passou (maio/2010 a maio de 2011) e vi toda a minha família me apoiando, pegando nas minhas mãos e mostrando a direção.

    Tenho 30 anos e com os 30 se encerra, ou pelo menos espero, o ciclo do retorno de saturno, outra volta só daqui à 29 anos, se Deus quiser. Foram boas lições que  aprendi com saturno e me considero muito melhor para “começar a viver”. Aproveitei demais os 29 anos que se passaram e muitas coisas que eu deveria aprender nesse período que passou, saturno me ensinou em apenas um ano. Agora me sinto completo, com os 29 anos que vivi de forma intensa e com as intensas lições de tive com saturno. Tchau Saturno, te vejo com 59.

    sábado, 23 de abril de 2011

    O Capitalismo do Amor

    Descobri que não sei absolutamente nada sobre o amor. Descobri que ninguém sabe o suficiente sobre esse sentimento tão arrebatador e devastador. Amor para mim é entrega, companheirismo, compaixão, amizade… Quando amamos, nossa vida se confunde com outra, nossos compromissos são bilaterais e você se torna a pessoa mais boba, chata e impertinente do Mundo.

    Amar é algo muito sério, não é para qualquer um. Brincar de amor, nem pensar, isso é muito perigoso e o final, com certeza será desastroso. Quando amamos, tornamos parcialmente responsável pela vida de outra pessoa, da parte da vida que essa pessoas nos confiou, o seu coração. Somos o guardião “permanente”, até que o “pra sempre” termine, dos sentimentos que tange o campo das relações afetivas desse outro alguém.

    Amar é algo estranho. O ser humano é um bicho estranho, talvez o mais estranho entre os outros animais. Dizem que a inteligência nos diferencia dos outros animais, a nossa capacidade de pensar. Mas de fato, somos os únicos que destruímos outros seres da nossa espécie. Não pensamos, não assimilamos antes de destruir outras vidas, ou pior, fazemos tudo de forma premeditada, ferramos a vida de outros por mero capricho. Tudo porque temos a capacidade de pensar ou de nos ausentar dessa condição.

    Não sei pelo o que nos apaixonamos… Muitas das vezes o objeto do nosso amor não existe, nos apaixonamos pelo o que criamos, pelas características que achamos graça e que com o decorrer do tempo começa nos irritar e aquela pessoa, pela qual você um dia jurou passar o resto de sua vida, acaba se tornando insuportável. Muitas das vezes, nos apaixonamos pela pessoas que construímos, por algo que fisicamente não existe.

    Somos consumistas ao extremo e ai está o sucesso do capitalismo no Mundo. Temos diferentes motivações para nos levantarmos de manhã e ir a luta, mas tudo se resume ao consumo. Trabalhamos porque temos que ganhar dinheiro e consumir e o amor funciona da mesma forma. Queremos consumir uma pessoa inteligente, um cara com dinheiro, que anda na moda e que nos faz rir. Queremos consumir uma moça bem educada, que fala vários idiomas, que já viajou para vários países, que é sensível, sexy e bem sucedida. O amor se tornou uma moeda de troca e quem tem mais a oferecer, consegue a melhor oferta.

    Passamos a vida inteira consumindo, comprando roupas, sapatos, aparelhos eletrônicos e coisas que nunca iremos descobrir uma utilidade prática. Com o tempo cansamos de tudo aquilo, aparece novidades e sentimos a necessidade de trocar, de consumir mais e aquele objeto de desejo, que pagamos com tanto sacrifício, vai parar no eBay, pois ele já foi substituído por outro novo, que será pago no cartão, em 10 vezes.

    Começamos olhar as fotos e desacreditamos que um dia tivemos cabelo skatista, que usávamos calça bag e que íamos para escola com tênis conga. Da mesma forma funciona com quem nos relacionamos, olhamos pra trás e desacreditamos que um dia fomos capazes de “usar” aquela pessoa. Na verdade nunca estamos satisfeitos com o que temos e estamos em constantes mudanças e como ninguém é igual a ninguém, com o tempo os objetivos são reavaliados e o laços que uniam aquelas pessoas são desatados.

    A maioria dos casais que permanecem juntos, aqueles que vencem a barreira da vida, apenas cumprem as convenções sociais. Alguns são amigos de verdade e de fato uma separação seria impossível, mas muitos, a grande maioria, ficam juntos por outros fatores que não é o amor, as vezes por despeito. Gosto muito da música “Senhora e Senhor” do Titãs, ela expressa bem o que eu quero dizer.
    Veja só o que restou, do nosso caso de amor. Uma casa com varanda e um jardim que não dá flor. Uma geladeira cheia de comidas sem sabor, um programa interminável diante do televisor, uma lâmpada queimada no lustre do corredor... O pensamento distante para evitar a dor, o olhar tão desbotado que já não distingue cor, velhas rugas escondidas debaixo do cobertor. Saudades, indiferença, decadência e mau humor. Tratamento respeitável de senhora e senhor.
    Passamos boa parte de nossas vidas com uma pessoa e não conseguimos deixa-lá porque nos apegamos ao que ela foi um dia ou a imagem que construímos. Passamos a viver um amor amargurado por conta de um passado feliz e que muitas das vezes nem foi tão feliz assim. Jogamos toda a nossa vida fora por conta de um bom sexo que tivemos um dia ou por conta de bens materiais que foram adquiridos ao longo dos anos. Definitivamente, quando isso acontece, é melhor aderir ao capitalismo do amor, cadastrar o velho no eBay e tentar sentir aquele sentimento de novo, ou vamos viver como “senhora e senhor”.

    quarta-feira, 30 de março de 2011

    Contracorrente Estreia em Telas Brasileiras

    O longa-metragem “Contracorrente” chega às telas brasileiras, no dia 08 de abril. O lançamento será simultâneo em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Contracorrente é o primeiro longa-metragem de Javier Fuentes-León e foi escolhido pelo Peru para concorrer a uma das vagas de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011.

    Assisti Contracorrentes na abertura do 18º Festival Mix Brasil de Cinema. O evento foi um sucesso, com a presença do diretor Javier Fuente-León. Foi o primeiro filme peruano que assisti e confesso que fiquei tocado com a qualidade da fotografia, que ressaltou a beleza da costa peruana e a qualidade do cinema daquele país.

    O filme conta a história de Miguel (Cristian Mercado), um homem respeitado na vila de pescadores onde vive com a sua esposa Mariela (Tatiana Astengo), que está grávida do primeiro filho do casal. Embora viva bem com a sua esposa, Miguel tem um caso extraconjugal com o artista forasteiro, Santiago (Manolo Cardona), chamado pelas costas pelo povo do vilarejo de “Príncipe Encantado”. Quando a história ganha um rumo sobrenatural, Mariela começa a questionar Miguel, que eventualmente terá que decidir se é homem o suficiente para assumir a sua sexualidade.

    Mais do que uma história de uma de amor entre dois homens em meio ao preconceito velado de uma sociedade conversadora e religiosa, contracorriente é um filme que fala de superação e humanidade. Todos os gays que vivem em sociedades ou famílias conservadoras, já viveram um pouco de contracorriente, já se sentiram presos numa sociedade preconceituosa, que não enxergam nada além dos costumes aprendidos e repetidos ao longo dos anos.

    Ser “viado” (como diz no filme) é coisa pra homem. Assumir a sua sexualidade e enfrentar a tudo e a todos não é para qualquer um. Existem muitos casos de héteros mal casados, que são infelizes e por sua vez fazem de suas famílias infelizes, por não terem sidos machos o bastante para assumirem que são gays. Vencer o seu próprio preconceito não é para qualquer um, se deitar com outro homem não é assumir um lado feminino, mas é ressaltar a masculinidade que muitos machos que pagam de homofobicos para amigos tentam esconder. Contracorriente é um pedido de libertação para a dignidade humana e sexualidade plena.