Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Diálogos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Diálogos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Filho da Irmã Benedita

Foi a primeira vez que fomos numa feira de sexo, aquela era considerada a maior da América Latina, um galpão enorme, totalmente destinada ao sexo. A feira era bem voltada para o público heterossexual, mas haviam alguns apelos para gays e lésbicas, principalmente para as lésbicas, pois duas mulheres juntas fazem parte do apelo heterossexual masculino. 

Participamos de várias brincadeiras na feira, passamos por uma parede onde podíamos colocar nossas mãos por buracos que davam acesso a outro corredor e lá tinha pessoas que poderiam ser tocadas; pagamos um strip tease particular e assistimos um show ao vivo de sexo lésbico, com a apresentação da posição tesoura. 

O movimento tesoura consistia com o entrelaçamento das pernas das duas parceiras, formando uma espécie de tesoura no órgão genital. Eu tentei a posição com outro cara, a sensação é gostosa, mas com homem deve ser informação demais, com bolas, pintos e sacos se misturando. 

Compramos vários brinquedos, eu levei uns vibrados e ele outro, também compramos anéis penianos, géis e óleos, cuecas e suportes atléticos – um tipo de cueca, usada por atletas, com abertura na parte de trás, que servem para sustentação das bolas. Usamos muito os suportes atléticos, mas nunca para fim esportivo. 

Nossa maior preocupação era onde esconder os suportes atléticos, eu sempre enviava os meus no fundo das gavetas, mas tenho certeza que minha mãe já se deparou com aquilo e deve estar até hoje se perguntando que raios era aquilo. O dele foi colocado dentro de um tênis antigo, pois tinha certeza que sua mãe não mexeria lá. 

Antes de eu passar na casa dele ele foi procurar o tênis, mas não encontrava. Foi perguntar para mãe onde havia parado aquele par de tênis velho e a mãe responde: 

- Dei para o filho da irmã Benedita.

- Como assim mãe? A Sra. não pode sair dando as minhas coisas assim. 

- Mas você nem usava, o tênis estava velho e o menino precisava. 

Passando pela rua, de carro, em direção para o motel, lá estava o filho da irmã Benedita, jogando futebol, com o par de tênis velho. Ele acenou para nós com um sorriso e uma pegadinha de leve sobre os shorts. Naquele momento tivemos certeza que ele sabia que o suporte atlético não era para fins esportivos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Trio de Muhammed

Existem algumas regras de conduta para pegação virtual que, se seguidas a risca, evitam muitos desconfortos. As mais eficientes são a "cutuca que te cutuco" e a "curta que eu curto". A probabilidade de incômodos na paquera, com a aplicação dessas regras, é quase nula.

João Vitor, experiente no ambiente virtual, aplicou as duas técnicas conjuntas com Muhammed. Meia hora depois Muhammed já havia retribuído a cutucada e as curtidas. Sem pensar duas vezes João Vitor já enviou um "olá" por mensagem instantânea e sem ter tempo de fechar a janela de bate papo, já visualizou a notificação que Muhammed estava respondendo.

Muhammed era um refugiado Sírio. Veio para o Brasil por conta de divergências políticas e sociais. Como se não bastasse a sua família ser de oposição ao Governo, Muhammed também era gay e teve que fugir do seu país para não ser morto.  João Vitor era filho de baiano com uma pernambucana, tinha uma testosterona natural dos nordestinos, mesmo nascendo em São Paulo, tinha calor correndo pelo sangue.

As conversas fluíram muito rápido, Muhammed prezava pela boa comunicação, além de ser muito desconfiado, talvez pelo fato de ter fugido de um país, onde vizinhos e familiares poderiam se revelar como o seu mais cruel inimigo.

Muhammed e João Vitor foram se conheceram no Parque do Ibirapuera. Parecia um sonho para Muhammed, finalmente ele estava em paz, seguro e com alguém que ele poderia amar. No final daquela tarde, depois de caminharem de mãos dadas pelo parque e tomaram sorvete, envolvidos pela vista do pôr do sol proporcionada pelo lago, Muhammed pediu João Vitor em namoro. João Vitor não disse sim, mas também não disse não, apenas respondeu com um beijo e disse que ele era um dos seus melhores presentes.

Foi numa das infinitas conversar que tudo ruiu, ou quase ruiu. Muhammed perguntou para o João Vitor se ele já tinha feito "trio". João Vitor sem entender o questionamento, pediu explicações, até descobrir que o "trio" se tratava de "sexo à três". João Vitor pensou em responder qualquer coisa, mas optou pela sinceridade e disse "sim". Muhammed desolado respondeu que era difícil achar alguém sério no Brasil e que todo mundo já havia feito "trio".

A imagem do "trio" não saia da cabeça de Muhammad, como ele poderia amar uma pessoa que já fez "trio"? João Vitor tentou argumentar, disse que tudo o que ele viveu o transformou naquele homem que o amava, mas Muhammad estava convicto de que homem que faz "trio" não era homem para ele.  

João Vitor fez uma proposta para Muhammed e sugeriu um último encontro e se após este encontro a imagem do "trio" ainda atormentasse a cabeça de Muhammed, cada um seguiria o seu destino e assim foi feito. 

Eles foram num motel, pois apesar de Muhammed ser resolvido, ele vinha de uma cultura muito reprimida, o sexo ainda não havia acontecido entre eles. Tudo foi louco e intenso, ambos transaram como duas cadelas no cio, parando apenas para tomarem banho e fumar um cigarro.  

Quando sairiam do motel, João Vitor perguntou se a imagem do "trio" havia saído da cabeça de Muhammed. Ele muito triste respondeu que não e que ambos deveriam ser apenas amigos. João Vitor não ficou triste, mas também não ficou alegre. Ele perdeu Muhammed, mas poderia pintar, quando chegasse em sua casa, um mapa de colorir afixado na parede do seu quarto, contornando as delimitações da Síria. A marcação seria num tom verde claro, mas a esperança de se tornar um verde escuro era muito grande

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Tô Sapecando

Semana passada, almoçando com um amigo, comentamos sobre o novo comercial do “H2OH!”, da marca de refrigerantes PEPSICO. O filme mostra o homem assumindo o controle da cozinha, enquanto sua mulher comenta que tem duas noticias para dar a ele, uma boa e uma má. Ele opta por primeiro ouvir a má. A mulher comenta se ele se recorda de uma moça do trabalho dele, que ele vida “dando em cima”. Ele fica tenso e é surpreendido com uma reposta de duplo sentido: “Então, tô sapecando”. 

Na discussão, defendi que o “tô sapecando” vem no sentido de “estou pegando” e ele defendeu que é no sentido de “estou de olho em vocês. Procurei no dicionário informal o que significa o termo “sapecando” e encontrei a seguinte resposta: 
Sapecando: 

Pegando, ficando, traçando, fazendo sexo, transando.  

A gente não tem nada sério, só estamos sapecando. 
Como o dicionário informal é um site de construção coletiva, assim como o site Wikipédia, não podemos concluir como correto o significado do termo. Qualquer pessoa pode contribuir na construção de terminologias, publicando os significados no site. 

Apesar do duplo sentido, gostei muito do comercial, pois mostra a mulher em pé de igualdade com o homem. Nos comercias de margarina, vemos sempre a mulher comandando a cozinha, enquanto o homem se coloca no papel de macho alpha. Sabemos que essa relação de família é ultrapassada e hoje as mulheres estão no mesmo patamar de igualdade em relação aos homens e em muitos casos, são as mulheres que assumem o papel de provedora do lar. 


E você, como interpretou o termo “Tô Sapecando” no comercial?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Necessidade da Inclusão

- Na minha escola tem um menino que ninguém gosta dele – disse a minha sobrinha.

- E porque ninguém gosta dele? – perguntei.

- Porque ele é gay – respondeu. Aquilo deu um play num filme da história da minha vida, lembrei de dias difíceis que passei no colégio, onde era conhecido como “Marcos Viadinho”.

- Você não deve se afastar de ninguém por conta disso – aconselhei.

- Não, eu sou amiga dele, fico conversando com ele no intervalo – respondeu minha sobrinha.

Começaram a chamar minha sobrinha de “sapatão”, por ser amiga do “viadinho” da escola. Ela partiu em defesa dela e do menino, dizendo que não era pelo fato dela ser amiga dele, que ela era “sapatão”. Senti orgulho da minha sobrinha, que mesmo sendo hostilizada por ser amiga do menino, não se intimidou e continuou sendo amiga dele.

Disse no post “Os Filhos que Geramos” que “ninguém opta pelo descaso, ninguém é reservado por mero capricho”. Quantas pessoas que hoje são reservadas, que foram reservadas pela sociedade, por escolas que não cumpriram o seu compromisso didático de proporcionar a aceitação das diferenças.

Em todas as escolas existe um, ou vários “Wellingtons”, menino reservado, com sexualidade duvidosa e que se prende no “seu mundo”. O mundo exterior acaba tornando-se dolorido demais, é quase impossível chegar na roda onde estão as pessoas mais descoladas da escola e dizer “olá”. O que fazer diante disso? Ficar numa redoma de vidro, onde ninguém te atinge e lá dentro você dá as regras, as suas regras que você irá obedecer, pois é o seu “mundo particular”.

Eu já fui o “Wellington”, já fui o cara estranho da escola, que torcia para não haver intervalos, pois estava cansando das hostilizações que eram expostos e que supervisores, professores e diretores escolares faziam vistas grossas. Eu já fui o garoto que era deixado de lado e que apenas algumas meninas conversavam comigo.

Na minha sala tinha o Tadeu, ele fazia natação de terça e quinta comigo e numa outra sala , umas duas sérias acima da nossa, havia um amigo dele. O Tadeu foi um dos que mais promoveu bullying comigo. Ele me chamada de “bicha” e  me batia na escola, ele era menor que eu e eu naturalmente ia pra cima dele, para me defender, mas ele era protegido pelo seu amigo. Nas terças e quintas, era a minha vez de bater nele e na natação não tinha ninguém que o defendia, mas no mesmo dia, um pouco mais a tarde, era a minha vez de apanhar na escola, do seu amigo, que era maior que eu.

Na sala de aula, o Tadeu sentava ao meu lado, era um inferno declarado, o cara não me dava sossego. Certa vez, quando ele estava voltado da mesa da professora, eu coloquei um lápis com a ponta bem apontada para furar a bunda dele, ele sentou e gritou. Ele estava com uma calça de helanca e aquilo machucou e muito, ele perguntou:

- Porque você fez isso comigo? – perguntou.

- Sei lá, você não gosta de mim - respondi.

- Gosto sim, nos somos amigos – disse ainda fazendo cara de dor.

- Se gosta de mim, porque fica tirando o sarro e mexendo comigo? Eu não gosto disso – questionei.

Depois desse episodio, continuei sendo o “bicha” da escola, mas o Tadeu nunca mais me provocou. Continuamos na natação de terça e quinta e ele continuou sentando ao meu lado, na sala de aula e o seu amigo, da outra série, nunca mais me bateu.

Não consigo explicar a motivação do bullying. Na minha época fui desamparado por profissionais “habilitados” a formarem cidadãos e o caso da escola no bairro do Realengo, Rio de Janeiro, prova que esses profissionais continuam pecando nas atribuições do oficio de suas profissões. O Wellington Menezes, que hoje é repudiado pela sociedade, é nosso filho. Fomos nos que o criamos, o ensinamos a odiar e colocamos armas em suas mãos, fomos nos que o odiamos primeiro.

O Wellington tirou vidas, mas quantas vidas foram tiradas pelo bulliyng? Quantos homens e mulheres nesse mundo morreram em quartos escuros, isolados pela sociedade, pelo simples fato de serem diferentes. Não quero viver numa sociedade em tons pasteis, quero o verde, o vermelho, o preto e o amarelo compondo a nossa aquarela. Quero a diversidade interagindo na sociedade. Enquanto repudiarmos tudo o que vai em contramão ao que a “sociedade vigente” julga como padrão, vários “Wellingtons” se desabrocharam pelo mundo afora.

Talvez eu ainda seja um “cara estranho” e viva numa redoma de vidro, onde criei o meu mundo. Talvez essa redoma se tornou tão grande, com tantos integrantes, que virou um mundo de verdade, onde posso me articular com iguais. Os que não tem essa sorte, de viver num gueto que te abrigue, entra num estado de loucura, pois ninguém consegue viver sozinho. Sou favoravel aos guetos e tenho um sonho de que um dia ele se tornar tão grande ao ponto de se confundir com as barreiras da sociedade e que ninguém precise se incluir nesse gueto para ser aceito.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A Novela da Vida Real

Uma das minhas maiores frustrações é saber que as melhores histórias da minha vida, não ganham as páginas deste blog. São tantos fatos engraçados, que não posso escrever por conta do bom senso.

- Você não imagina como eu me segurei para não escrever no blog a história que aconteceu no café – confessei com risos nos lábios, lembrando do ocorrido.

- Você até pode escrever, só mude os nomes para preservar a nossa imagem. Ao invés de colocar o meu nome, coloque “Pedro” – disse o próprio “Pedro”, me autorizando a escrever a história.

Conheci o Pedro numa balada gay de São Paulo. Estava com alguns amigos e de longe flertava com ele. Ficamos trocando olhares por mais de meia hora, até que um amigo, cansado de ver toda aquela babação, me aborda:

- Gatinho, acorda pra vida! Você vai ficar até quando olhando o cara de camiseta azul – falou meu amigo me incentivando a chegar até a ele.

- Ah! Ele tá fazendo carão, já esta me olhando à mais de meia hora – respondi desacreditado.

- Não está não, estou aqui vendo, ele está olhando para você e está afim – retrucou meu amigo.

Comecei a me aproximar timidamente. Dançando próximo de uma amiga, que estava mais próxima dele. Percebi que ele parou de me olhar diretamente, me afastei da minha amiga e me aproximei ainda mais dele, quando ele sorriu e fez um sinal para eu me aproximar.

- Pensei que você fosse hétero – disse Pedro depois de trocarmos alguns beijos.

- Eu, hétero. Não sou mesmo, sou muito gay – defendi minha homossexualidade em meio aos risos.

Pelo fato de ter me aproximado da minha amiga, ele pensou que eu fosse namorado dela. Gostei muito da companhia do Pedro, passei momentos ótimos ao lado dele e dos meu amigos.

Passaram-se alguns dias e ele me convidou para jantar. Fomos num restaurante Italiano, no bairro da Bela Vista. Foi uma noite super agradável. Depois do jantar, ele me convidou para tomar um café, sugeri um que fica no Shopping Frei Caneca, o Café Scada, que fica próximo das salas de cinema. Quando estávamos conversando e tomando café, fomos interrompidos por um rapaz, que entrou no café com olhar fixo para a nossa mesa.

- Oi, tudo bem? – disse o rapaz olhando fixamente para o rosto dele.

- Oi – respondeu o Pedro sem graça, enquanto o rapaz saia do café.

- Está tudo bem? – perguntei.

- Sim, tudo bem. Ele é o meu ex-namorado e ainda não aceitou bem a nossa separação – justificou Pedro.

Entendi o fato perfeitamente. Tive um relacionamento de 7 anos e o término foi gradativo e cheio de recaídas. Não existe novidade nessa situação, sabemos que ex, quando se mantem próximos, a amizade se confundo com reconciliação afetiva. Enquanto continuávamos conversando, vi quando o ex-namorado do Pedro foi até a lanchonete do cinema e comprou um refrigerante e ficou andando de um lado para o outro, desnorteado. Voltou ao café e se aproximou novamente da nossa mesa:

- Desculpe-me a minha falta de educação. Meu nome é Eduardo, sou namorado do Pedro – disse olhando para mim.

- Ex-namorado – interrompeu o Pedro com a voz alterada.

- Sim, agora é ex-namorado mesmo. Porque você está fazendo isso comigo Pedro? – indagou com voz embargada.

A discussão dentro do café durou uns 5 minutos, eu fiquei sem reação, mas dando graças a Deus pelo fato do refrigerante que ele segurava não ter um destino não apropriado, a minha cara. Depois da discussão, o ex-namorado do Pedro voltou novamente ao café, que tem paredes de vidro, e lá de fora ficou chamando o Pedro.

- Marcos, me desculpe. Vou até lá, senão ele voltará aqui e fará mais escândalos – disse o Pedro se levantando. Quando ele voltou, saímos do Café e terminamos a noite num bar da Augusta.

Voltei pra casa com uma estranha sensação de felicidade. Nunca vivi uma cena daquelas, típica de um seriado da Fox ou de uma novela Global. Minha vida sempre foi atípica e gosto disso. Sempre envolvido com fortes emoções e situações que por conta da privacidade dos envolvidos, nunca irão ganhar as páginas deste blog.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Em 2010 pela primeira vez...

Sentir-se recusado por um grande amor é uma dor imensurável. Passei muitas crises no meu antigo relacionamento, mas sempre nos resolvíamos. Na última briga, senti que as coisas seriam diferentes, que de certa forma uma situação definida havia se instaurado. Depois de tantos compromissos firmados, acredito que deveríamos ter sido mais cautelosos em algumas ações e não jogarmos tudo pra cima, sem medir as consequências.

Já me senti rejeitado em várias situações, na escola, entre amigos e na minha família, mas nada se comparou ao ser rejeitado por um grande amor. Quando ouvi as palavras “não quero mais nada contigo, nem a sua amizade”, doeu demais. Sinto que fui um cara bom, honesto, amoroso e carinhoso. Lutei por esse amor que se foi, mas quando lutamos sozinho, por mais força que seja empenhada na luta, nunca ela é o bastante, sempre nos damos por vencido.

Já tive outras rejeições nessa relação, mas encarei como fases, crises ou brigas cotidianas. Dessa vez, em alguns momentos tive que falar grosso e alto para ser ouvido e fui interpretado como grosseiro. Não me arrependo do que vivi, essa rejeição me deixou mais forte e maduro, hoje me sinto mais preparado para viver outras relações, experimentar outros amores e dar todos os créditos do sucesso de relações futuras, as relações passadas.

Vou viver outros relacionamentos, assim espero… Conhecerei outras pessoas, serei arrebatado por outros amores, mas nunca mais seria abandonado pela primeira vez… Mesmo a contragosto, serei abandonado por outros pessoas, em outras situações e até mesmo em relações afetivas. Posso sentir dores maiores, mas estarei mais forte e maduro para encarar a vida.

#MemeDasAntigas – Um Inventário de 2010.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ciclos de Debates no Mês da Diversidade

10 de junho

No dia 10 de junho será realizada a primeira mesa do Ciclo de Debates do Mês do Orgulho LGBT, voltada para a temática de educação. Às 18h30, ocorre a abertura com Alexandre Santos, Manoel Zanini, Dimitri Sales e Franco Reinaudo. Das 19 às 22 horas o assunto será “Menina é menina, menino é menino: a violência homofóbica como expressão da naturalização do binarismo de gênero”.

Cláudio Roberto da Silva, doutor pela Faculdade de Educação da USP, defendeu tese de doutorado sobre Direitos Humanos e homofobia em ambiente escolar, será o coordenador dos debates que contará com Tatiana Lionço, doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e consultora para a elaboração de políticas públicas para a população LGBT; Alexandre Bortolini, coordenador do Projeto Diversidade Sexual na Escola da UFRJ; e Marcelo Daniliauskas, mestrando em sociologia da educação pela Faculdade de Educação (USP), estuda o Programa Brasil Sem Homofobia e as políticas educacionais para a diversidade sexual e identidade de gênero.

16 de junho

Entre os assuntos abordados pelo Ciclo de Debates do Mês do Orgulho LGBT está o tema Trabalho. No dia 16 de junho a discussão começa com a exibição dos filmes da campanha colombiana “Si eres LGBT disfrutatelo al derecho”, realizada pela Corporación Red Somos, junto aos coletivos Somos Opción e Dominarte Cine para Mentes Diversas, às 18h30.

O debate será das 19 às 22 horas, abordando “Mercado e avanços no trabalho para LGBT”, será coordenado por Cassio Rodrigo de Oliveira Silva, diretor do Departamento de Humanidades da Secretaria de Governo da Prefeitura de Santo André, e com a participação de Mariana Ferreira Melo, assistente social do Centro de Referência e Combate à Homofobia; Marcos Freire, metroviário e coordenador do Coletivo LGBT da CUT/SP; e Selma Venco, pesquisadora da Unicamp e consultora da Fundap no Programa Estadual de Qualificação Profissional (PEQ) da Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho (SERT).

17 de junho

No dia 17 de junho o Ciclo de Debates do Mês do Orgulho LGBT apresenta dois temas importantes: A Terceira Idade e a Questão Racial. Antes dos debates, às 18h30, será apresentado o curta “Laura uma diva do babaduu!!”, de Monica S. Siqueira, produzido a partir de encontros e entrevistas realizadas durante trabalho de campo antropológico com um grupo de travestis com mais de 50 anos, residentes na cidade do Rio de Janeiro. Em particular, este vídeo etnográfico apresenta uma dessas personagens que nos conta suas histórias, fala sobre seu cotidiano e seus modos de perceber e vivenciar o encontro com a velhice.

Às 19 horas, a primeira mesa, “LGBT Idos@s Também são (muito) Gostos@s!: sexualidade na terceira idade”, será coordenado por Ricardo Rocha Aguieiras, atuante nas lutas em defesa dos cuidados com gays idosos e população LGBT envelhecente. Foram convidados para debater Antonio Crístian Saraiva Paiva, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, e Monica Soares Siqueira, doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, com trabalhos nas áreas de envelhecimento, sociabilidade, relações de gênero, geração, memória e antropologia visual.

Negritude LGBT é o tema da segunda mesa, às 20h30. Mafoane Odara Poli Santos, mestranda em Psicologia Social pela USP e coordenadora do Programa de Juventude da Ashoka (Geração MudaMundo) ,coordena as discussões que terão Edmilson Alves de Medeiros, coordenador de Educação Comunitária do Estudo iPrex e membro da Rede Nacional de Negras e Negros LGBT, e Silvia Aguião, doutoranda em Ciências Sociais pela Unicamp, com experiência na área de Antropologia nos temas: homossexualidade, gênero, mestiçagem, raça e Aids.

18 de junho

No dia 18 de junho, o Ciclo de Debates pretende fazer uma discussão que apresente uma análise e panorama internacional, abordando Avanços/retrocessos internacionais e Tráfico de travestis/transexuais. O debate começa às 18h30. Participam desta discussão Anália Belisa Ribeiro Pinto, da Secretaria de Justiça e presidente do Comitê Interinstitucional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, e Dalila Fiqueiredo, mmembro do Conselho Estadual da Condição Feminina do Estado de São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Criança e da Juventude.

19 de junho

O Ciclo de Debates também discutirá Direitos. Será no dia 19 de junho, sábado, com exibição, às 15 horas, do curta metragem “Phedra”, de Claudia Priscilla, documentário sobre a atriz Phedra D Córdoba, cubana e transsexual que vive no centro de São Paulo.

Às 15h30 acontece a mesa Judiciário versus Legislativo: Avanços e Retrocessos, e será coordenado por Gustavo Menezes com a participação de Sergio Gardenghi Suiama, procurador da República em São Paulo, membro do Grupo de Direitos Sexuais e Reprodutivos da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, e pelo vereador da cidade de São Paulo, Ítalo Cardoso (PT).

A segunda mesa ocorre às 17h30 e discutirá o PL 122: Criminalização da Homofobia, este é o caminho? O advogado Dimitri Sales, coordenador de políticas para a diversidade sexual do Estado de São Paulo, será o coordenador. Confirmaram presença para compor a mesa: Roger Raupp Rios, juiz federal que atuou em processos sobre discriminação contra homossexuais e transexuais, e Renato De Vitto, defensor público em São Paulo e coordenador da Comissão de Segurança Pública e Justiça do IBCCRIM.

23 de junho

O tema do Ciclo de Debates do dia 23 de junho será Famílias. Antes da primeira mesa, às 18h30, será apresentada a esquete teatral “O Poeta e a Barca ou As peripécias de Gil Vicente entre os mares do inferno e da glória”.

A primeira mesa, às 19 horas, será sobre Adoção Conjunta por Casais LGBT: Aspectos Jurídicos, Psicológicos e Sociais e será coordenado por Marcos Valdir Silva, coordenador do CRESS/SP Seccional São José dos Campos, militante do Grupo Atitude de São José Campos. Os debatedores serão Maurício Ribeiro de Almeida, psicólogo Judiciário e membro da subsede do Conselho Regional de Psicologia – Bauru, e de Vasco Pedro da Gama e Junior de Carvalho, primeiro casal a conquistar dupla paternidade no Brasil com adoção homoafetiva da filha Theodora R. Carvalho da Gama, e de Heveraldo Galvão, advogado, mestre em Direitos Coletivos e Função Social do Direito (UNAERP).

Às 20h30 começará a segunda mesa, com o tema Conjugalidade LGBT: União Civil ou Casamento? Alessandro Soares da Silva, professor da Escola de Artes da Universidade de São Paulo, no curso de Gestão de Políticas Públicas, coordenará os debates entre Elizabete Zambrano, colaboradora do Centro de Estudos Atendimento e Pesquisa da Infância e Adolescência (CEAPIA), e Rosa Oliveira, advogada na área de direitos humanos ligados à epidemia de AIDS, gênero e sexualidades desde 1994.

24 de junho

O tema do Ciclo de Debates no dia 24 de junho é Saúde, iniciando, às 18h30, com a exibição do curta “Bailão”, de Marcelo Caetano. Às 19 horas, a primeira mesa discute Homofobia e Saúde Mental, o papel da Psicologia na proteção e promoção da auto-estima de LGBT. Janaína Leslão, membro da Comissão Sexualidade e Gênero do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, coordena a mesa que contará com participação de Sandra Elena Sposito, coordenadora da Comissão de Sexualidade e Gênero do CRP/SP, da psicanalista Patrícia Porchat, e de Pedro Paulo Gastalho de Bicalho, presidente das Comissões de Direitos Humanos e Psicologia e Diversidade Sexual do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro.

A segunda mesa começa às 20h30 e tem como proposta de discussão: Grávid@?! Direitos Sexuais e Reprodutivos para Homens Trans e Mulheres Lésbicas. Michelle Miranda, psicóloga da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, coordenará o debate entre Alexandre Santos (Xande), presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, Valéria Melki Busin, da coordenação da ONG feminista Católicas pelo Direito de Decidir, e Lidiane Ferreira Gonçalves, assessora do Departamento de Promoção dos Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

25 de junho

A exibição do curta “Sexo e Claustro”, de Claudia Priscilla, começa às 18h30. O documentário, feito na Cidade do México, aborda uma singular personagem e seus sentimentos a respeito de sexo e religião.

A primeira mesa será às 19 horas, com o tema "Entre Transar e Fazer Amor: Sexo Entre Mulheres", que terá coordenação de Michelle Alcântara de Camargo, mestre em Antropologia Social pela Unicamp com atuação nos temas de gênero, feminismo e estética corporal. Para debater, a mesa contará com a participação de Regina Facchini, pesquisadora colaboradora do Pagu - Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp, e de Guilherme Almeida, professor do PURO/UFF e doutor em Saúde Coletiva.

Às 20h30 começa a segunda mesa, com o tema "Sado-Masoquismo". Regina Facchini coordenará os debates, com presença de Jorge Leite Júnior, professor da Universidade Federal de São Carlos, com pesquisas nas áreas de sexualidade e gênero, Marco de Tubino Scanavino, responsável pelo Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) e do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (ProAMITI) do Instituto de Psiquiatria do Hospiatal das Clínicas (IPq-HC) da FMUSP, e de Mistress Bela, do Clube Domina.

*26 de junho

No dia 26 de junho, sábado, o tema no 8o. Ciclo de Debates serão as Questões de Gênero. Ele acontecerá no auditório do Sindicato dos Bancários de São Paulo. A primeira mesa, das 10h30 às 12h30, tem como título "@: do Binarismo à Pluralidade" (Estudos Queer).

Aline Freitas, do coletivo feminista Birosca, coordena a mesa que terá como debatedores Juliana Perucchi (UFJF), Richard Miskolci, professor de Sociologia da UFSCar e pesquisador do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (Unicamp), e Miriam Adelman, professora do Departamento de Ciências Sociais da UFPR.

Às 13h30 será exibido o curta "Os Sapatos de Aristeu", de René Guerra, que aborda a exigência da identidade construída de uma travesti morta.

A segunda mesa terá como tema "Intersexos e o Direito à não Mutilação" e os debatedores serão o argentino Maru Cabral, co-diretor de GATE (Global Advocates for Trans Equality), e Paula Sandrine Machado, doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O debate sobre despatologização da transexualidade/travestilidade é a terceira mesa. Conta com a participação da psicóloga Clara Cavalcante, coordenadora do Programa de DST/HIV/AIDS da Prefeitura de Jandira/SP, Flavia Teixeira, professora da Faculdade de Medicina da UFU, Marcia Aran, professora do Instituto de Medicina Sosial da UERJ, e de Maria Filomena Fernichiaro, do Ambulatório Trans-SP.

A quarta mesa será coordenada pela diretora do Brazililan Crossdresser Club, Patricia Din, e começa às 18h30. O tema será Drag queens, Crossdressers e suas Relações de Proximidade/distanciamento com o Universo LGBT. Para debater foram convidados Anna Paula Vencato, doutora em Antropologia pela UFRJ, e Aureliano Lopes da Silva Junior, mestrando em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

28 de junho

No dia 28 de junho acontece o último debate do 8o. Ciclo de Debates, encerrando as atividades do Mês do Orgulho LGBT. Das 19 às 21 horas, a "Cultura LGBT, o que é?" estará em discussão.

A mesa será coordenada por Manoel Zanini, coordenador Geral do Mês do Orgulho LGBT de São Paulo. Os debatedores serão Laura Bacellar, atualmente responsável pela Editora Malagueta (primeira inteiramente dedicada à literatura lésbica), e por Jean Wyllys, jornalista e escritor, autor de "Aflitos", mestre em Literatura pelo Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

A partir das 21 horas, será apresentada a esquete adaptada do espetáculo teatral "Um Dia Você Vai Entender", do grupo teatral Impacto, em parceria com o Grupo de Jovens Ativistas da APOGLBT. Às 21h30, o jornalista Irineu Ramos Ribeiro, autor do livro "A TV no Armário" fala sobre sexualidade e mídia.

Serviço:

Local: Auditório da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania (Pátio do Colégio, nº 148 / 184 - próximo à estação Sé do Metrô).
Entrada Franca

*O debate do dia 26/06 – Questão de Gênero – acontecerá no Sindicato dos Bancários – Rua São Bento, 413 (estação São Bento do metrô).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Intolerante a Homofobia

Ontem, aconteceu um fato extremamente constrangedor na empresa que eu trabalho. Soube que uma funcionária contou para uma recém contratada que sou gay, porém, ela fez uso de termos pejorativos, referindo a mim como “viado” e a minha irmã como “sapatão”. A recém contratada da empresa não disse quem nos expôs de forma tão esdrúxula e para evitar mais confusões, não queria continuar comentando sobre assunto.

Trabalho na empresa dos meus pais, o que deixa a situação ainda mais constrangedora. Quando tomei conhecimento do ocorrido, fui falar com minha mãe e disse que não admitia tal comportamento e queria punição para quem se referiu assim de mim e da minha irmã. Meus pais não queriam alarmar ainda mais esse assunto que os incomoda e pediu para eu esquecer tudo isso, relevar a situação, eu me revoltei e disse que não e que me recusava continuar numa empresa onde não há respeito a minha pessoa, ainda mais se tratando de uma empresa que eu ajudei a construir.

Hoje, não fui trabalhar. Minha mãe me ligou e eu disse que estava decidido, não trabalharia nessas condições e exigia saber quem havia me tratado dessa forma. Depois meu pai me ligou e perguntou se era isso mesmo, se eu não iria mais trabalhar na empresa, repeti a ele o que já havia dito a minha mãe. Meia hora depois minha mãe me ligou e diz qual funcionária foi autora da homofobia, e, que ela seria suspensa por uma semana para refletir sobre as normas de conduta que ela adotou na empresa.

O clima ficou estranho, mas eu fiquei satisfeito, pois percebi que sou completamente intolerante a homofobia no ambiente de trabalho e que em situações extremas, eu prefiro perder o emprego para manter a minha dignidade. No meio de toda essa confusão, varias vezes repeti que “luto na sociedade contra a homofobia e não posso permitir fatos como esse na minha vida”. Senti-me honrado e grato a minha família, que entendeu que o respeito e a dignidade do ser humano estão acima de tudo. Se não agisse de forma tão radical, invalidaria toda a luta que já travei pelos direitos dos LGBTs e não haveria motivo algum para continuar a minha militância.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Homem Heterossexual não Contrai HIV

O lutador Marcelo Dourado, integrante do BBB10, meteu o dedo onde não foi chamado e fez um desserviço público em rede nacional. Elenita falava sobre a estatística de mulheres casadas que contraem o vírus, que hoje em dia é bastante grande, quando Dourado entrou no assunto e disse que conhece alguns médicos que já lhe disseram que "a probabilidade de se pegar AIDS é muito maior entre homossexuais, pois é mais fácil de se contrair a doença fazendo sexo anal" e acrescentou que quanto ao fato das mulheres estarem se infectando numa velocidade bem maior que os homens é porque os “maridos dessas mulheres são no mínimo bissexuais, pois pelo que ouvi de alguns médicos a pessoa tem que ter sido passivo em alguma vez".

Tanto Lena quanto Dourado ressaltaram também a importância de se usar preservativo, mas Dourado deixou uma ressalva: "Com minhas namoradas eu não uso mesmo, é impossível cara, eu confio nelas, se estão comigo é porque isso é verdadeiro, eu acredito nisso". Dourado também disse "com 37 anos só namorei 3 garotas, portanto só transei sem camisinha com 3 mulheres até hoje, todas em quem eu confiei". Pelo visto o boxeador passa mais tempo no seu universo paralelo, que é a academia, do que vivendo no mundo real, com milhões de portadores do vírus HIV, sendo eles: heterossexuais, homossexuais e bissexuais.

É dever da Rede Globo exibir o bate papo na piscina e aproveitar a ocasião para frisar que TODAS as pessoas que tem uma vida sexual ativa e se abstém de meios profiláticos para a prevenção de DSTs, estão sujeitas a contrair o vírus HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis. É papel das redes de televisão entreter e informar a população, mesmo a Rede Globo tendo editado a programação, o dialogo foi exibido no pay-per-view, o que não exime a responsabilidade da emissora. O Secretário Estadual de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cortes, divulgou uma nota rebatendo os comentários de Dourado. Segue a nota na integra:

Com relação ao que disse, hoje, o lutador Marcelo Dourado, em bate papo com demais colegas do BBB10, da TV Globo, acredito que é preciso lembrar que a epidemia de AIDS é um grande problema de saúde pública em todo o mundo. Apesar dos esforços empreendidos nos últimos anos e os reconhecidos avanços obtidos, são inúmeros os desafios que ainda temos pela frente. Diminuir a cada ano o número de novos casos de AIDS, enfrentar o estigma e o preconceito que ainda cercam a doença e melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/AIDS são alguns destes desafios.

As informações disponíveis, amplamente divulgadas em todas as campanhas de prevenção das DST/AIDS, deixam claro quais são os meios de transmissão da AIDS. Qualquer relação sexual, homossexual ou heterossexual, sem o uso correto do preservativo, acarreta risco de transmissão do vírus da AIDS. Qualquer informação diferente, além de contrariar todas as evidências em que se baseia a política de prevenção em nosso País, é um desserviço à nossa população. Traz desinformação, reforça preconceitos de gênero e orientação sexual e acentua o estigma às pessoas que vivem com HIV/AIDS.

Não trabalhamos mais com a noção de grupo de risco. Acredito que informações equivocadas, sem embasamento científico, mais o preconceito e a desigualdade de gênero são, infelizmente, os principais fatores de risco para a infecção pelo HIV/AIDS em nossa sociedade. Enquanto a ciência não descobre a cura para o vírus, vamos continuar levando à população as informações sobre os meios de transmissão, sobre o respeito aos direitos humanos e sobre o direito ao pleno exercício da sexualidade com responsabilidade.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Triste Despedida

- Ela quer ver os três – disse a mulher apontando para o Douglas e os seus irmãos enquanto saia da sala onde a mãe deles estava aguardando a remoção para a UTI. Eu olhei para a Sandra, tia deles com ar de reprovação, pois percebi que no fundo ela estava com medo de morrer e queria se despedir de todos. No outro dia, após o enterro, o Thiago, irmão do Douglas, comentou comigo e com o Douglas:

- Lembra-se de ontem, quando a mãe chamou nos três e falou que amava todos na mesma medida – disse ela com uma voz embargada.

- Lembro – confirmou o Douglas. Achei linda atitude da Dona Sirleide, nos seus últimos momentos de vida ela se preocupou com os seus filhos, em como eles iriam ficar sem ela e quando eles estavam saindo da sala, ela disse:

- Olha aqui! Vocês, não vão brigar, comportem-se – deu o último puxão de orelha nos três.

O velório foi muito rápido, ela faleceu à 1 hora do dia 20/01 e os médicos pediram para que ela fosse enterrada no mesmo dia. O corpo chegou ao Velório Municipal de Arujá às 14 horas e o caixão foi fechado às 16 horas e seguimos o cortejo até o Cemitério Municipal de Arujá. Entre os presentes, estavam muitos amigos de trabalho do Douglas, e conseqüentemente meus amigos, que viajaram mais de 60 km (Ibirapuera – Arujá) para dar forças ao amigo, fiquei contente com o carinho, nas horas mais difíceis é feita a prova de fogo que separa os simples colegas dos amigos.

No cemitério, o Douglas e a sua irmã preferiram não participar do enterro, ficamos de longe observando a multidão que acompanhava o corpo de sua mãe até a cova. Os amigos do Douglas ficaram um pouco distante, distancia suficiente para lhe dar privacidade num momento tão difícil, mas não o bastante a ponto que ele não soubesse que estavam todos ali, lhe dando a maior força. Após o enterro, foi o momento mais difícil, onde amigos e parentes se abraçavam e choravam. Me compadeci quando vi a Danila abraçando o Douglas e dizendo:

- Que saudades da mamãe – disse a menina abraçando o seu irmão enquanto ambos se confortavam.

Saindo do cemitério, fomos para a casa da Sandra, tia do Douglas, sofri demais vendo o sofrimento dele e dos seus irmãos. Os três são adultos, mas diante da mãe, não passavam de três crianças, a Dona Sirleide foi uma super mãe e mimou aqueles filhos até o ultimo dia da sua vida. O Douglas comentou que no dia da morte dela, ela passou toda a roupa dele e deixou tudo no cabide para eles depois colocar no guarda-roupa, o Douglas gosta de arrumar a roupas dele em degrade, aliando da cor mais escura para as mais claras.

A mãe do Douglas se foi em meio a muita comoção, sabemos que agora vem a pior parte na superação dessa perda e o apoio e a paciência dos amigos serão imprescindíveis. A Dona Sirleide deixou saudades, mas em contrapartida a esse vazio estabelecido, ela também deixou ótimos momentos de lembrança como boa mãe, mulher e amiga, momentos que servirão como apoio para a vivência da dura realidade que todos estão passando e que ainda esta por vir.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Nada Normal

O telefone tocou e pelo identificador de chamada, vi que era uma chamada que eu estava esperando.

- Alô – disse prontamente.

- Diga, estou retornando a sua ligação – respondeu de forma seca.

- Você acredita que eu esqueci porque eu te liguei? – disse com voz sonolenta, pois estava deitando vendo televisão.

- Você está muito estranho, depois eu falo com você.

- Como assim? Estranho? Eu estou normal – me defendi.

- Você está estranho e não quero falar com você. Quando você estiver melhor a gente se fala – enfincou as palavras direto no coração.

- Não, eu estou nor... – não consegui terminar de falar. Choquei olhando para o visor do telefone e vendo a mensagem “ligação encerrada”.

Depois do ocorrido, fiquei pensando o que justificaria tal ato e não encontrei justificativa. Não entendi e recapitulo a história e não vejo o porquê de determinado tratamento. O que é ser estranho? O que é ser normal? A normalidade é amplamente discutida nas ciências sociais a ponto de não ser estabelecido parâmetro algum para a normalidade. O que é “normal” para uns pode ser loucura para outros. Vai entender...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Debate na Rádio DSFM

Quando criança e ainda no início da adolescência, um dos meus sonhos era ser jornalista, tudo o que envolvia mídia me fascinava, cheguei até a escrever alguns artigos para o jornalzinho do colégio. Imaginava que um dia poderia ser ancora de um telejornal ou até mesmo locutor de rádio, cheguei a me inscrever no vestibular para Comunicação Social na Metodista e na UMC, acabei não cursando, me envolvi em outros projetos, cursei administração e atualmente curso Ciências Políticas.
Justificar
Segunda-Feira (30/11), entrei pela primeira vez num estúdio de uma rádio, participei de um debate na rádio DSFM de Suzano, confesso que fiquei fascinado. No estúdio havia uma mesa grande com toda a parafernália para a rádio funcionar e na dimensão da mesa haviam sete microfones para apresentadores e convidados. A precisão que os operadores tem com o tempo, me chamou a atenção, a todo o momento o rapaz que comandava as vinhetas e reportagem avisa ao ancoras: “Estamos tantos minutos adiantados” Deve ser um trabalha gratificante.

O debate que participei foi decorrente ao “Dia Mundial da Luta Contra a AIDS”, além da minha presença, havia a presidente da ONG Elas por Elas, a Secretária de Saúde de Poá e um médico urologista de Suzano. Foi um debate muito proveitoso, o médico urologista levou uma matéria que informava a estagnação de numero de infectados, houve um salto de 33 milhões para 33,4 milhões de infectados, esse aumento se deve ao fator da maior qualidade de vida dos infectados, ou seja, o numero de óbitos está diminuindo cada vez mais.

Também foi abordada a questão da mulher estar se infectando mais que o homem e para explicar esse fenômeno apontamos a liberação sexual feminina e a conquista ao mercado de trabalho; o dilema dos profissionais do sexo com os clientes que pagam mais pela pratica de Bareback; a maior vulnerabilidade dos jovens e para explicar isso apontamos o conservadorismo das famílias brasileiras e a falta de dialogo com os filhos; também apontamos a importância das ONGs num país com dimensões continentais onde o poder público nem sempre conhece todas as particularidades regionais e frisamos a atuação da campanha “Fique Sabendo” que está realizando testes de DSTs em vários municípios do Brasil.

Foi um dialogo proveitoso, onde apontamos a necessidade de maior atuação do poder público para o combate a epidemia e o incentivo das ONGs nas pequenas cidades, onde muitas das vezes o precário sistema de saúde não contempla a comunidade com informações de profilaxia. Ter acesso a informações e aos exames de DSTs e tratamento universal é gratuito é um direito de todos os brasileiros. Para saber os locais de realização dos exames, acesse o site do Fique Sabendo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Beyoncé no Réveillon Carioca

A Prefeitura do Rio Janeiro confirmou que a grande estrela do Show da Virada em Copacabana será nada mais, nada menos, que a cantora norte-americana, Beyoncé Knowles. A data ainda não foi confirmada pela cantora, mas a prefeitura do Rio deve anunciar nesta semana os detalhes da festa, que contará com cinco palcos montados na areia. Antes de fechar com a Beyoncé para ser a grande artista da festa que está orçada em 15 milhões, a prefeitura do Rio tentou trazer Madonna e U2 para o evento. A escolha de beyoncé é assertiva, pois tanto Madonna como U2, estiveram rescentemente no Brasil

O pai da Beyoncé, Mathew Knowles, já havia cogitado a possibilidade da musa do R & B se apresentar na America do Sul. Na época, a mídia cogitou apresentações no Brasil e Argentina, que são os maiores mercados do continente, mas desta vez, o Brasil levou a melhor e será o palco de estréia da cantora no nosso continente. Quatro canções do novo álbum da cantora estão entre as mais tocadas nas rádios brasileiras: Diva, Halo, If I Were a Boy e Single Ladies. Só de saber que essas músicas farão a trilha sonora do nosso réveillon, fico animado.

Antes mesmo de ver essa notícia nos meios de comunicação tradicionais, eu fui noticiado pelo, talvez, maior fã da Beyoncé no Brasil, pelo Douglas Vilela. Ele me ligou meio afobado, dizendo alguma coisa de Beyoncé, depois falou Show, Brasil, Rio de Janeiro e Virada. Quando acordei, juntei as palavras e deduzi: A Beyoncé fará o show da Virada no Rio de Janeiro.

- Comentarei isso no meu blog amanhã - disse sonolento.

- Oiu, oiu, c’est très bien! - ele concordou animado.

- Também comentarei que você me acordou só por causa disso - disse num tom reprovativo.

- Só por isso nada, a Beyoncé no Brasil é tudo que há nessa vida e comente também que você não deixou eu dormir a tarde - respondeu na defensiva.

Esse ai é um fã de verdade. Dos seis anos que eu convivo com o ele, há seis anos ele suplica pela vinda da Diva ao Brasil, enfim, as preces dele foram atendidas e sem sombras de dúvidas, esse réveillon ficará para sempre na melhores recordaçãos do Douglas.

Recentemente, também foi noticiado que a Beyoncé poderia se apresentar na Festa dos 50 Anos de Brasília, mas o vice-governador, Paulo Octávio (DEM), optou pelo ex-beatle Paul McCartney que poderá se apresentar com o cantor Roberto Carlos. O vice-governador oficializou o convite ao Rei no dia 29. O show deve ser aberto por Roberto e, logo depois, Paul faz o seu. No final, os dois dividem o palco num dueto inédito. Será ótimo se tivéssemos dobradinha da Beyoncé no Brasil, uma escala Rio – Brasília, uma pena o show da capital não ser sediado por ela.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Guia de Etiqueta para o Término de um Relacionamento Afetivo

O término de uma relação é sempre um assunto delicado, às vezes isso ocorre por conta da intimidade que o casal adquiriu ao longo dos tempos ou até mesmo porque a outra parte não espera por uma ruptura. Ontem, conversando com um amigo, fiquei sabendo que o ex-namorado dele terminou ao som de “Seamisai” de Laura Pausini. O ex-namorado do cara não teve coragem de dizer o que sentia e botou a música para rolar.

Achei a idéia péssima, pois além de estigmatizar uma música tão bonita, prova que a pessoa não tem condição alguma para o diálogo e sem contar que não somos obrigados saber italiano a não ser que ele tenha escolhido a versão que a Laura canta com o Gilberto Gil, mas mesmo assim, a idéia foi péssima. Pensando nisso, elaborei um pequeno “Guia de Etiqueta para o Término de um Relacionamento Afetivo”, são dicas simples do que não fazer na ocasião término, pois antes de qualquer coisa, temos que pensar: "Ai, e se fosse no meu!".
  • Nunca termine um relacionamento expressando o que você sente ao som de uma música, trecho de um filme ou recitando uma poesia, a outra pessoa não merece odiar para sempre aquela música, filme ou poesia porque você não soube expressar os seus sentimentos.
  • Não termine no transito, principalmente se você estiver em São Paulo e a pessoa que estiver levando o pé estiver dirigindo. Na verdade, nunca sabemos como as pessoas reagirão nesses casos e o zelo pela integridade física de ambos vem em primeiro lugar.
  • Não termine depois de uma noite de amor, isso poderá gerar uma grande confusão mental no rejeitado, a não ser que a intenção seja castigar e fazer a outra parte se lembrar para sempre do que perdeu, mas se for esse o caso, você não passa de uma vagabunda que não respeita os sentimentos alheios.
  • Nunca termine por Orkut, Twitter, FaceBook ou blogs, ninguém merece ter um momento desses divulgado amplamente na internet, a não ser que o relacionamento seja virtual, mas nesse caso, existe o e-mail.
  • Se você traiu, não termine na presença do amante, ninguém merece estar cara a cara com o grande álibi da separação, ainda mais se o amante for muito mais gostoso e bonito do que o seu namorado.
  • Não termine em datas comemorativas, não importa ser é aniversário do cachorro ou o dia da bandeira, lembre-se, aquele dia será para sempre marcado com esse fatídico episódio.
  • Jamais termine por telefone ou vídeo conferência, a não ser que você tenha uma liminar concedida pela justiça que impeça que o seu namorado se aproxime de você, nesse caso, o fim é inevitável.
  • Não peça para assessores, secretários, procuradores ou seguranças terminarem em seu nome, não existe nada pior do que a falta de uma conversa franca, um face to face.
  • Não termine na presença de outras pessoas, a não ser que o relacionamento seja a três, a quatro e por ai em diante, lembre-se: esse é um momento que diz respeito apenas aos envolvidos na relação.
Espero que essas dicas ajudem a minimizar os estragos gerados com o término de um relacionamento e no caso de dúvidas, coloque-se no lugar da outra pessoa e imagine como você se sentiria caso ocorresse uma ruptura. Quando nos colocamos no dos outros, as chances de errar são bem menores. Os términos sempre são complicados, muitas das vezes são despedidas permanentes e dói saber que aquele alguém que compartilhou tantos momentos foi embora da nossa vida, foi viver e desbravar outros amores.

domingo, 2 de agosto de 2009

Bareeback e Cinema Pornô: O Impacto no Comportamento Gay

"Gosto de sexo, eu não vou negar
Gosto de cama, não vivo sem ela

Gosto de pornô, de atores bombando

Cenas pre-condom, cavalo sem sela"


O Espaço Entre Homens, da Associação da Parada do Orgulho LGBT discute, NO PRÓXIMO DIA 06/08, o tema: Bareeback e Cinema Pornô: O Impacto no Comportamento Gay

'Bareback' é uma palavra que, em inglês, significa originalmente cavalgar sem sela. Mais recentemente, foi adotada pelos gays para se referir a um conjunto de pessoas que têm fetiche por sexo sem camisinha e não levam em conta o risco de infecção por DST/Aids, ou mesmo utilizam essa probabilidade como um 'tempero a mais' – mas terminou adquirindo um terceiro significado: virou gíria e tem sido usada para se referir a qualquer sexo sem camisinha. Com esse último significado, 'bareback' foi adotado pela indústria do pornô gay: filmes gays bareback = filmes gays sem camisinha.

Desde o início da epidemia de HIV, o cinema pornô gay, ao contrário do heterossexual - que permanece refratário até hoje -, logo adotou a camisinha como padrão em suas cenas. Os filmes anteriores a isso ficaram conhecidos como 'pre-condom' (pré-camisinha).

Os maiores estúdios e principais produtores , como Titan, Falcon, ChiChi LaRue, BelAmi, Colt e Lucas Entertainment, que constituem o que chamamos de "indústria mainstream" mantêm a estratégia do sexo seguro até hoje. O mesmo é seguido pelas produtoras nacionais.

No entanto, de uns anos para cá, produções com características mais amadoras, geralmente gravadas no Leste Europeu e distribuídas sobretudo pela internet, trouxeram uma nova onda ao cinema pornô gay: são os filmes bareback, que, a exemplo das produções mainstream heterossexuais, não usam camisinha.

Inicialmente marginais, esses filmes têm crescido em número e conquistado um público cada vez maior, a ponto de fazer frente aos maiores estúdios – e, dizem os especialistas, de dominar o mercado nos próximos anos!

E agora?

A maior vulnerabilidade dos gays ao HIV é conhecida.

- Seriam esses filmes uma resposta a uma demanda de público, que se queixa(va) de não ter produções mostrando sexo sem camisinha, como os heterossexuais sempre tiveram?

- Será que eles estimulam o comportamento de risco na vida real?

- É uma estratégia comercial ou uma irresponsabilidade social?

- Por que causam mais polêmica que os filmes héteros, indústria em que praticamente todos os filmes são bareback?

Para discutir o tema, a Associação da Parada convida a todos para uma terça feira "Entre Homens" super especial, com direito a comes e bebes, fotos e análises de atores pornôs característicos de cada período (anos 70 até os dias de hoje) e... Trechos de filmes!

Quando?
06/08/2009, às 19h

Onde?
Praça da República, 386 - Sala 22 - Centro
01045-000 - São Paulo, SP
Tel.: (11) 3362-8266

Quem?
Homens gays, bis, trans, múlti, pans, uni... Mulheres, travestis, héteros... Todos são bem-vindos! O convidado especial é João Marinho, editor da revista Sex Boys, com 5 anos de experiência no mercado erótico nacional, e apreciador inveterado de filmes pornôs.

Sobre o Entre Homens
Gerenciado por Murilo Sarno, o Espaço Entre Homens é uma iniciativa da Associação da Parada do Orgulho GLBT que visa a refletir com o público gay, numa roda de conversa livre e espontânea, temas relacionados ao universo gay masculino. Todos são convidados a participar, e a entrada é franca.

domingo, 26 de julho de 2009

Preciso de Mudanças

Mude
Por Edson Marques

Mas comece devagar, porque a direção
é mais importante que a velocidade.
Mude de caminho, ande por outras ruas,
observando os lugares por onde você passa.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Descubra novos horizontes.

Não faça do hábito um estilo de vida.

Ame a novidade.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
Busque novos amigos, tente novos amores.
Faça novas relações.
Experimente a gostosura da surpresa.
Troque esse monte de medo por um pouco de vida.
Ame muito, cada vez mais, e de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, de atitude.

Mude.
Dê uma chance ao inesperado.
Abrace a gostosura da Surpresa.

Sonhe só o sonho certo e realize-o todo dia.

Lembre-se de que a Vida é uma só,
e decida-se por arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação, um trabalho mais prazeroso,
mais digno, mais humano.
Abra seu coração de dentro para fora.

Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.

Exagere na criatividade.
E aproveite para fazer uma viagem longa,
se possível sem destino.
Experimente coisas diferentes, troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você conhecerá coisas melhores e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento, a energia, o entusiasmo.

Só o que está morto não muda !

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Morte e Vida Severina: Análise da História Numa Perspectiva Social

Morte e Vida Severina é um texto de histórias simples e significados profundos. O protagonista é um retirante, um nordestino de vinte anos que foge da seca e da vida sofrida e miserável do Sertão e que, caminhando às margens do rio Capibaribe em direção a cidade do Recife, tem a esperança de encontrar vida melhor.

Na primeira parte do poema o retirante se apresenta. Trata-se de “Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba”. Não é por acaso que o escritor escolheu esse nome, já que é muito comum no Sertão nordestino. Milhares de nordestinos partilham o protagonista seu nome, assim como sua miséria e seu sofrimento. Portanto, o que parece ser uma tentativa de particularizar quem é o protagonista na verdade faz o contrário. Ao se apresentar, Severino encarna todos os retirantes do Sertão, “iguais em tudo na vida” e na perspectiva constante do mesmo tipo de “morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”. E viver a “vida severina”, tendo como perspectiva não mais que a morte, é a “sina” que une todos os nordestinos que, vivendo no árido Sertão, trabalham duramente para “abrandar estas pedras suando-se muito em cima” e “tentar despertar terra sempre mais extinta”. Sem apoio suficiente do Estado, submetidos ao domínio, à violência e à exploração dos coronéis do Sertão, sem meios de produzir para sua subsistência, estes severinos vêem-se obrigados a emigrar de suas terras ou moradias para as cidades.

Na segunda parte o retirante encontra dois homens que carregam um defunto. Vítima de uma das formas de “morte severina” citadas na primeira parte, este agricultor, “Severino Lavrador”, morreu de emboscada por causa de uma disputa de terras. O diálogo de Severino com os dois “irmãos das almas” revela o motivo: aquele lavrador morreu por causa da cobiça de outro que desejava se apoderar de seus “hectares de terra” “que não dá nem planta brava” mas onde ele “plantava palha”. Os interlocutores parecem não mais se indignar com a injustiça que ocorre, pois é uma situação contra a qual os severinos do Nordeste não tem como lutar. Afinal, “o que é que acontecerá contra a espingarda” e o assassino? Simplesmente terá “mais campo”. Interessante verificar que ao se falar da bala que mata em invés da identidade do assassino (que parece ser conhecida pelos que carregam o corpo) vê-se no acontecimento algo comum para a vida naquela região. Com efeito as personagens não demonstram a indignação que as poderia levar a lutar contra tal injustiça.

A terceira parte nos monstra um aspecto interessante da cultura no Sertão nordestino: a religiosidade que permeia sua imaginação. O caminho de Severino é marginal ao rio Capibaribe que, por causa da seca, está fino e, em alguns pontos, seco. A sucessão de pequenos arruados cortados pelo fino rio, que vez ou outra encontra uma vila maior, parece ao Severino as contas de um rosário, objeto popular de devoção católica. E o andar do retirante através de uma paisagem monótona e estafante, só suportável pela esperança de alcançar uma vida melhor ao final, lhe é percebido como a reza de uma ladainha ou de um “rosário até o mar onde termina”. A religiosidade que notamos no texto não é uma religiosidade particular do retirante, algo que este ofereça espontaneamente para Deus como forma de devoção, mas uma carga que deve suportar, uma penitência que deve realizar para obter sua redenção. A prática da reza do rosário, tal como a da ladainha, é uma devoção aprendida e realizada socialmente e só pode ser entendida no contexto cultural do devoto. Quando Severino reza seu rosário do retirante o faz com todos os outros retirantes que fogem da “morte severina” em busca de uma vida melhor. Na vida do nordestino severino as peregrinações, as rezas de rosário e as missas se misturam com a crença em benzedeiras, em festas religiosas e em advinhas e lhe dão toda uma forma de ver e entender seu mundo.

Na quarta parte, Severino retirante mais uma vez se depara com a morte. Num local onde esta é sempre tão presente também a religiosidade permeia as tradições populares e trás conformação para os que ainda vivem e significado para os sofrimentos. Mas, ao tempo que a maioria das personagens se conforma, alguém de fora da casa ironiza as excelências (rezas em forma de canto pelas quais o defunto é oferecido à vida após a morte). Como poderia o finado levar para o além aquilo que talvez nunca possuiu no mundo da “vida severina”? Mesmo o caixão que carrega o finado não lhe pertence, não poderia ter comprado em vida, e certamente a “cera, capuz e cordão”, além da imagem da “Virgem da Conceição”, são coisas que lhe custariam grande dificuldade para adquirir. Novamente vemos aqui temos a referência a uma peregrinação. As excelências lembram da cera e cordão para a vela, da imagem da Virgem para a procissão e assim o finado poderá se juntar a tantos outros defuntos que sofrem a “morte severina”, retirantes desta vida para o além. Mas as únicas coisas que esses retirantes realmente possuem e poderiam levar a qualquer lugar, mesmo para o mundo do além, são as “coisas de não: fome, sede, privação”.

O calor, a seca e a falta de comida e de abrigo submete o retirante a um sofrimento intenso durante sua jornada. Entretanto, o nordestino do Agreste e da Caatinga conta com pouca ou nenhuma assistência do Estado e de organizações em geral para sobreviver, o que o leva a decidir enfrentar esse caminho e emigrar. Mas preferiria permanecer em seu local de nascimento e subsistir de sua lavoura ou, tendo saído de sua terra, “achar um trabalho de que viva”. Na quinta parte do poema Severino, cansado, pensa que, se o rio em alguns momentos pára, poderia também ele parar seu caminho e tentar permanecer. Entretanto, o que faz “o Capibaribe interromper sua linha” é a seca. E a consequência da seca é a escassez e a morte, elementos sempre presentes por todo o caminho de Severino. É a morte “ativa”, às vezes até “festiva” (quando cantada na religiosidade popular). Onde quer que se encontre água no Sertão nunca será suficiente para a população que a divide com a parte que é “consumida pelas roças, pelos bichos, pelo sol com suas línguas”.

Numa terra em que o clima não favorece o pequeno e médio lavrador a agricultura não é capaz de prosperar sem ajuda do poder público e dos bancos. Dada a omissão destes para a pequena e média propriedade, o resultado nas cidades do Sertão é a falta de emprego e a escassez. A “vida severina” é uma vida de privações e de miséria, tanto no campo como nas cidades. Com a exceção dos grandes proprietários de terras, que têm acesso a recursos financeiros e materiais suficientes para fazer a terra árida a produzir, a grande massa da população está submetida a essa situação. Na sexta parte do poema o retirante descobre que não encontrará trabalho naquela ou qualquer outra cidade do Sertão. Ninguém dará emprego para um retirante que não sabe mais que lavrar “terra má” e plantar “o algodão, a mamona, a pita, o milho” ou qualquer outro produto do modo que aprendeu a fazer, ou seja, no estilo do “roçado”. Somente os grandes proprietários de terra (dentre estes também aquele tipo de proprietário que buscou com sua “ave-bala” obter “mais campo” para “fazer voar as filhas-bala” e ampliar seu latifúndio) são capazes de mecanizar suas plantações e fazer uso de técnicas modernas de irrigação e tratamento do solo. Sem apoio, o médio produtor não é capaz de concorrer com o grande, pois este conta com maior produtividade, menores custos e apoio dos bancos (para não falar das condições excepcionais que não raro os grandes produtores conseguem obter dos bancos públicos).

A consequência disso é que os severinos do Sertão, se de um lado se vêem obrigados a abandonar suas terras em busca de sobrevivência na Zona da Mata ou em cidades grandes do litoral, deixando suas terras para os grandes proprietários, por outro lado não conseguem trabalho pois não têm nenhuma qualificação ou educação para os tipos de emprego que são oferecidos nos locais para onde migram. Em suas terras de origem “ninguém aprendeu outro ofício, ou aprenderá”. A “vida severina” os acompanham para onde quer que se retirem. Mas esta parte sexta do poema também apresenta um tipo de personagem que não é grande proprietário de terras, não se pode dizer que seja rico, mas consegue sobreviver explorando uma realidade muito presente no Sertão nordestino. A mulher com que o retirante-protagonista dialoga explica que como lá “a morte é tanta” ela vive “de a morte ajudar”. As profissões que se relacionam com a miséria, a doença e a morte são fonte de renda num local onde “só é possível trabalhar nessas profissões que fazem da morte ofício ou bazar”. Mas mesmo esses ofícios são vedados aos severinos retirantes. Para serem médicos ou farmacêuticos precisariam de acesso à educação e ensino superior. E para serem benzedeiras, curandeiros ou rezadeiras, verdadeiros oficiantes da religiosidade popular, reconhecidos a ponto de vir gente “de um raio de muitas léguas” lhes chamar, precisariam de entendimento em artes mágicas e rezas ensinado a poucos. Não só para os latifundiários, mas também a esse tipo de classe média, as mortes “dão lucro imediato; nem é preciso esperar pela colheita: recebe-se na hora mesma de semear” o caixão no solo.

Um lampejo de esperança, um breve sonho de alívio toma o retirante na parte sete do poema quando chega à Zona da Mata. Depois de longa jornada por terras áridas o protagonista encontra um solo mais fértil, um clima mais úmido, onde os rios perenes têm “água vitalícia” e a terra, ao contrário da encontrada na Caatinga, é “fácil amansar” por ser “doce” e “tão feminina”. Para o retirante acostumado com a Caatinga de solo pedregoso e vegetação ressequida a Zona da Mata lhe parece a chance de uma vida melhor. É lá que então ele deseja plantar “sua sina”, seu destino. Mas não há lugar para ele na Zona da Mata. Nem para nenhum outro severino retirante. A Zona da Mata está tomada pelas imensas plantações onde não se avista “ninguém, só folhas de cana fina” e algumas usinas. O protagonista está pensando em se estabelecer nessa terra que parece o paraíso, o fim de seu “rosário”, mas está iludido. Os grandes usineiros de álcool e cana dominam toda a região que, ao invés de servir para o assentamento de pequenos produtores rurais e suas famílias, estão nas mãos de poucos proprietários. E o trabalho oferecido é pouco e perigoso por expor o trabalhador a riscos de mutilação durante as colheitas.

Na parte oitava do auto, o diálogo entre pessoas em um enterro desfaz a ilusão. O texto que se segue, imortalizado na voz de Chico Buarque de Holanda (na música “Funeral de um lavrador” de 1969), ironiza o trabalhador defunto que sonhou com justiça no campo com uma divisão de terras que resolvesse a miséria de sua “vida severina”. A terra que cobre a cova será, enfim, sua “roça”, onde o defunto poderá trabalhar para si e não mais “a meias, como antes em terra alheia”, e nem como escravo no eito (latifúndio que emprega trabalho escravo ou semi-escravo). Depois de anos de trabalho duro e miseravelmente remunerado o defunto tem seu caixão como “o brim do Nordeste”, que o “veste, como nunca em vida”. E essa terra de latifúndio que o cobre é a mesma que já “bebeu” seu “suor vendido”, sua juventude, sua felicidade e seu tempo de convivência conjugal, familiar e social.

Esta terra rica da Zona da Mata está tomada pelos grandes proprietários. E tal é o domínio que eles exercem sobre essa região que nem trabalhadores, nem os próprio rios, lhes são capazes de resistir. Na parte nona do poema Severino entende “por que em paragens tão ricas o rio não corta em poços como ele faz na Caatinga”. Ele “vive a fugir dos remansos” porque é desviado pelos latifundiários para a irrigação de suas plantações. E nem mesmo nessa terra fértil os trabalhadores recebem uma parte maior por seu “suor vendido”, já que estas são terras de “grande cobiça”. O protagonista conclui que, se deseja defender sua vida da “tal velhice que chega antes de se inteirar trinta”, neste local não deve se estabelecer. “O melhor é apressar o fim desta ladainha, fim do rosário de nomes” de cidades e paragens “que a linha do rio enfia”. Sua esperança de vida melhor o impele em direção ao Recife onde acredita vai encontrar a solução para sua vida miserável, assim como a religiosidade de seu povo acredita que a reza comunitária do rosário, se não melhora sua vida, ao menos impede que se torne insuportável.

Na parte dez, o retirante chega a Recife. Cansado, procura descansar e ouve a conversa entre dois coveiros. Falam sobre o trabalho no cemitério. Para os ricos o cemitério reserva “as belas avenidas”, “o bairro da gente fina”, ou seja, “o bairro dos usineiros, dos políticos, dos banqueiros” e também “dos industriais, dos membros das associações patronais”. Claro que se o defunto, ou melhor, o que herda o dinheiro que o defunto não conseguiu levar para o além, não puder pagar para estar enterrado em tal local, pode escolher o “bairro dos funcionários, inclusive extranumerários, contratados e mensalistas”, tais como “os jornalistas, os escritores, os artistas” e também “os bancários”, os “comerciários, os lojistas, os boticários” e aqueles que, apesar de terem profissão liberal, “não se liberaram jamais” da submissão ao poder econômico que a elite exerce sobre estes de classe média. Os “bairros ricos” do cemitério são melhor cuidados e apresentam menos trabalho aos coveiros. As classes alta e média conseguem melhor assistência de saúde, melhor qualidade de vida, melhor acesso a educação de boa qualidade e tudo isso lhes permite mais que uma vida melhor: lhes permite estarem enterrados em locais mais bem cuidados e dignos. Mas o desumano não está no tratamento que é destinado a quem tem como pagar, mas no tratamento que é negado aos que, apesar de uma vida de trabalho duro, não têm como pagar por uma cova digna.

Neste momento severino nota que, assim como para todos os severinos, o quinhão do cemitério que lhe caberá será aquele de várzea onde “o rio afoga na preamar e sufoca na baixa-mar”. Severino é “gente sem instituto, gente de braços devolutos” e de “enterros gratuitos”. Ele é “gente do Sertão que desce para o litoral” e “fica vivendo no meio da lama, comendo os siris que apanha”. Para o coveiro, as pessoas que, como Severino, estão destinadas a uma vida de miséria numa favela dos arredores do Recife deveriam ser sacudidos “de qualquer ponte dentro do rio e da morte”. Este coveiro, trabalhador assalariado que não tem consciência de sua própria situação de alienação e de exploração, que acha natural uns terem mais que outros e uns serem tratados com mais dignidade que outros, que não entende a razão que leva pessoas como Severino a sair do Sertão para o Recife, que acredita que alguém possa morar em uma favela cheia de lodo por opção pessoal ou por preguiça, é um legítimo representante da cultura dominante que a burguesia impõe às classes dominadas como se fosse verdadeira e universal. Agora Severino percebe, nas palavras do coveiro, que “vindo por essas caatingas, vargens, ai esta o seu erro: vem é seguindo seu próprio enterro”.

Severino fica desiludido. Na décima-primeira parte do poema, Severino percebe que não tem como fugir de sua “vida severina” e que o seu destino é forte demais para que possa lutar contra. Não tem como evitar a morte e, quando essa chegar, evitar sua indigência. É fato que ele sabia que depois do “rosário de cidades e de vilas” que caminhou “não seria diferente a vida de cada dia”, mas teve a esperança de “que ao menos aumentaria na quartilha, a água pouca, dentro da cuia, a farinha, o algodãozinho da camisa”, ou o seu “aluguel com a vida”. É o desejo da grande maioria dos brasileiros: uma vida que, se não rica, ao menos seja digna, com comida e saúde suficiente. Mas, se isso é muito menos do que qualquer ser humano merece, nem isso lhe é garantido por uma sociedade que privilegia quem já tem muito e marginaliza quem já está a sua margem e tem nada. Agora Severino acredita que seu enterro ele seguia, que não lhe resta mais para onde se retirar, e decide apressar a morte: pretende de jogar da ponte de um dos cais do Capibaribe.

Na décima-segunda parte, Severino trava diálogo com José, o carpinteiro. Esse diálogo muda os ânimos de Severino, mas demonstra porque Morte e Vida Severina é um auto de Natal. A relação entre este carpinteiro (“Seu José, mestre carpina”, vindo de “Nazaré da Mata”) e São José, pai de Jesus, é clara. Nesta parte do poema começa algo que poderíamos comparar com a encenação de um presépio. Se de um lado o tema de Natal está presente porque assim foi encomendado ao autor, por outro ele carrega uma significação religiosa própria da cultura no Sertão nordestino. No diálogo, Mestre carpina diz para Severino que embora a miséria seja “mar largo”, “para cruzá-la vale bem qualquer esforço”. José diz que o “mar” da miséria “precisa ser combatido, sempre, de qualquer maneira, porque senão ele alaga e devasta a terra inteira”. Mas se cada severino tem como sina lutar constantemente contra seu destino de pobreza, se contentando com o simples fato da miséria não aumentar, não seria tal atitude um conformismo disfarçado de luta? Nesse sentido Severino questiona: “há muito no lamaçal apodrece a sua vida? e a vida que tem vivido foi sempre comprada à vista?” e tem como resposta “o que compro a retalho é, de qualquer forma, vida”. Com efeito a religiosidade católica popular no Brasil costuma ensinar essa atitude de conformismo de José, onde nos submetemos a esta “vida severina” pelo simples motivo de ser vida.

O diálogo de José e Severino é interrompido na parte treze por uma mulher que anuncia o nascimento de uma criança, o filho de José. A ironia: enquanto Severino pensa em saltar para a morte, o filho de José “saltou para dentro da vida”.

Parte quatorze. Os vizinhos, amigos e duas ciganas visitam o mocambo para ver o menino. Ao modo dos cânticos religiosos de Natal, os presentes celebram o nascimento do menino, que consideram em algo especial, já que coisas boas aconteceram na favela. Porque a maré permaneceu alta “a lama ficou coberta e o mau-cheiro não voou”. O céu ficou estrelado e os mocambos se tornaram lugares mais aconchegantes, modelares, tal como gostam de descrever alguns acadêmicos (uma crítica do autor a um sociólogo de sua época do qual discordava). Mas se tudo isso se deve ao nascimento dessa criança, ou se ao menos essas são as impressões de quem se alegra com o fato, o que esperar de seu futuro, de seu destino? Se compararmos com a vida de Jesus (e a inspiração do texto de João Cabral de Melo Neto autoriza a fazê-lo), perceberemos que Jesus nasce pobre, vive pobre e, ao pregar uma doutrina que ameaça quem detém o poder em seu país, morre de forma cruel e infame. Este é o destino de todos os severinos?

Na parte quinze, em outro paralelo com o presépio, chegam visitantes trazendo presentes para o recém-nascido. Nenhum deles tem mais a oferecer que aquilo que faz parte de seu próprio dia a dia e de sua subsistência. São caranguejos dos mangues, o leite materno de uma vizinha, o jornal que serve de cobertor, frutas, ostras do cais de Aurora e outros. Numa situação de miséria como aquela os moradores da comunidade percebem a necessidade da colaboração.

Duas mulheres presentes pedem a atenção de todos na parte dezesseis do poema. Querem desvelar para os pais e seus amigos o destino que aguarda pelo menino que viera à luz. Se na parte quatorze se levanta a dúvida de qual seria o destino deste menino, agora as que se apresentam como “ciganas do Egito” lho vão revelar. A primeira cigana vaticina: engatinhará “por aí, com aratus” e “aprenderá a caminhar na lama”; Aprenderá a caçar “catando pelo chão tudo o que cheira a comida” e revirando o lixo; Quando adulto vestirá roupas sempre escuras de lama, pois será um pescador de siris e camarão. Mas o vaticínio da segunda cigana acrescenta mais um elemento ao destino desta criança severina. Poderá também ter uma vida com mais “planura” sendo um “homem de ofício”. Para se libertar dos mangues poderá vir a trabalhar numa fábrica, onde suas vestes permanecerão negas, não de lama, mas de “graxa de sua máquina”. Em troca de um salário baixo mas relativamente estável se submeterá à exploração do industrial e suas máquinas. Adivinhação ou destino já anunciado pela situação social em que o menino nasce?

A penúltima parte do poema se oferece à força e à luta que os severinos travam contra sua sina e a morte. Aquela criança prematura e guenza teima em vencer a morte que tão cedo lhe ameaça. Desnutrido, seu coração, “a máquina de homem”, continua a bater “como um sim numa sala negativa”. Sua vida talvez repita o destino de cada severino, essa miséria que nunca acaba, como se fosse “a última onda que o fim do mar sempre adia”. Entretanto, se o nascimento de uma criança pode ser motivo de preocupação para pais que vivem em miséria, certamente é também motivo de renovadas esperanças. Um filho é a chance de uma nova história, de um novo destino. Se o destino de um morador de mocambo repetiu a sina de cada severino retirante que antes tentou uma nova vida no Recife, o desta criança, nascida na cidade, poderá ser um pouco melhor pelo acesso que poderá ter à educação que, se não é suficiente, ao menos será melhor que a que os pais obtiveram no Sertão. O nascimento da criança é “belo porque com o novo todo o velho contagia”, “porque corrompe com sangue novo a anemia” e “infecciona a miséria com vida nova e sadia”. Como no Natal de Jesus, presente no imaginário da tradição popular, a criança que nasce na pobreza pode carregar consigo a força de começar um caminho novo e mudar o destino que marcou seus pais.

O poema termina com o carpina indo ao encontro de Severino, que não tomou parte de nada do que ocorreu no mocambo. Vem para lhe contar porque agora pensa que o protagonista não deveria “saltar fora da ponte e da vida”: para ele, “é difícil defender” a vida, “ainda mais quando ela é esta que vê, severina”, mas “não há melhor resposta que o espetáculo da vida”. Se na parte doze fica a dúvida sobre a atitude de José carpina, se é uma incitação a lutar contra a miséria ou se é um conformismo diante do aparentemente inevitável destino dos moradores de mocambo no Recife, agora fica claro o que move o otimismo do carpinteiro: é a vontade de viver, a mesma que moveu o retirante do Sertão para o litoral. E só essa vontade de viver é capaz de mover cada severino a desejar e lutar por uma vida melhor para si e para seus semelhantes. Cabe a cada brasileiro a tarefa de buscar e realizar soluções que permitam que o nome “severino”, usado de empréstimo pelo grande João Cabral de Melo Neto, seja devolvido ao nordestino como nome próprio e nunca mais precise ser usado como sinônimo de miséria.

Leia Também:

Morte e Vida Severina
Morte e Vida Severina: Esperança, Destino e Pobreza