Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Encontros de Carnaval

- Eu já fiquei com você - disse a meretriz depois que me deu o primeiro beijo.

- Comigo? Onde ficamos? - perguntei assustado.

- Isso não vou lembrar - respondeu como responderia qualquer outra meretriz.

- Como você se chama? - perguntei enquanto tirava sua peruca.

- Diego e você, como se chama? - perguntou me dando outro beijo.

- Marcos... agora eu me lembro de você, ficamos numa rave.

O encontro na rave tem mais de 5 anos, foi em Sorocaba, numa festa predominantemente hétero. Eu lá estava com os meus amigos, quando vi um cara bonito e barbudo parado, me olhando. Ele foi se aproximando aos poucos, veio por trás e disse ao pé do meu ouvido:

- Que sorte encontrar um ursão desses por aqui - disse enquanto eu virava para o beijar.

- E eu pensando que não rolaria nada nessa festa - disse entre um beijo e outro. 

Ele me levou para área de camping, estava procurando por um barraca, senti que ele estava um pouco perdido, mas achei natural depois de tantas bebidas e talvez um alucinógeno. 

- Aqui está! - disse ele entrando na barraca.

- Que bacana, estava querendo acampar aqui, mas meus amigos não toparam - respondi enquanto ele me puxava para dentro da barraca. 

O sexo rolou ali mesmo, dentro da barraca, ao som da rave e dos acampados ao redor. Transar ao som de trance e dentro de um camping, é uma experiência única e indescritível. Diego era todo peludo, era um pelo alto e macio, ele também tinha muitos pelos nas pernas, se não fosse pelo rosto, de longe seria difícil falar que ele era branco, seus pelos pretos tomavam todo o seu corpo.

- Posso saber o que significa isso? - perguntou um rapaz ao abrir a entrada da barraca.

- Se vista logo! - disse Diego enquanto subia as calças.

- O que está acontecendo? - perguntei confuso.

- Agora não posso explicar, apenas corre - e foi o que fizemos em meio as barracas, com calças caindo, bunda a mostra, sem camisetas e ao som de protestos do rapaz da barraca.

- Filhos da Puta, filhos da puta - ele gritava enquanto o pessoal das barracas davam risadas.

Depois de muito correr, nos jogamos na grama, próximo do palco das atrações, ficamos ali por alguns minutos, nos recompondo, vendo um nascer do sol maravilhoso e toda energia positiva que aquele lugar nos estavam proporcionando. Nos despedimos da mesma forma que nos conhecemos. Estava com meus amigos e ele chegou por trás e disse:

- Tchau, ursão - me envolvendo em seu peito peludo.

Só quando eu estava no meio do caminho eu percebi que não havia pego o telefone do rapaz e nem eu tinha dado o meu, mas se fosse para nos reencontramos, com certeza a vida se encarregaria de nos proporcionar novos encontros.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Filho da Irmã Benedita

Foi a primeira vez que fomos numa feira de sexo, aquela era considerada a maior da América Latina, um galpão enorme, totalmente destinada ao sexo. A feira era bem voltada para o público heterossexual, mas haviam alguns apelos para gays e lésbicas, principalmente para as lésbicas, pois duas mulheres juntas fazem parte do apelo heterossexual masculino. 

Participamos de várias brincadeiras na feira, passamos por uma parede onde podíamos colocar nossas mãos por buracos que davam acesso a outro corredor e lá tinha pessoas que poderiam ser tocadas; pagamos um strip tease particular e assistimos um show ao vivo de sexo lésbico, com a apresentação da posição tesoura. 

O movimento tesoura consistia com o entrelaçamento das pernas das duas parceiras, formando uma espécie de tesoura no órgão genital. Eu tentei a posição com outro cara, a sensação é gostosa, mas com homem deve ser informação demais, com bolas, pintos e sacos se misturando. 

Compramos vários brinquedos, eu levei uns vibrados e ele outro, também compramos anéis penianos, géis e óleos, cuecas e suportes atléticos – um tipo de cueca, usada por atletas, com abertura na parte de trás, que servem para sustentação das bolas. Usamos muito os suportes atléticos, mas nunca para fim esportivo. 

Nossa maior preocupação era onde esconder os suportes atléticos, eu sempre enviava os meus no fundo das gavetas, mas tenho certeza que minha mãe já se deparou com aquilo e deve estar até hoje se perguntando que raios era aquilo. O dele foi colocado dentro de um tênis antigo, pois tinha certeza que sua mãe não mexeria lá. 

Antes de eu passar na casa dele ele foi procurar o tênis, mas não encontrava. Foi perguntar para mãe onde havia parado aquele par de tênis velho e a mãe responde: 

- Dei para o filho da irmã Benedita.

- Como assim mãe? A Sra. não pode sair dando as minhas coisas assim. 

- Mas você nem usava, o tênis estava velho e o menino precisava. 

Passando pela rua, de carro, em direção para o motel, lá estava o filho da irmã Benedita, jogando futebol, com o par de tênis velho. Ele acenou para nós com um sorriso e uma pegadinha de leve sobre os shorts. Naquele momento tivemos certeza que ele sabia que o suporte atlético não era para fins esportivos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Trio de Muhammed

Existem algumas regras de conduta para pegação virtual que, se seguidas a risca, evitam muitos desconfortos. As mais eficientes são a "cutuca que te cutuco" e a "curta que eu curto". A probabilidade de incômodos na paquera, com a aplicação dessas regras, é quase nula.

João Vitor, experiente no ambiente virtual, aplicou as duas técnicas conjuntas com Muhammed. Meia hora depois Muhammed já havia retribuído a cutucada e as curtidas. Sem pensar duas vezes João Vitor já enviou um "olá" por mensagem instantânea e sem ter tempo de fechar a janela de bate papo, já visualizou a notificação que Muhammed estava respondendo.

Muhammed era um refugiado Sírio. Veio para o Brasil por conta de divergências políticas e sociais. Como se não bastasse a sua família ser de oposição ao Governo, Muhammed também era gay e teve que fugir do seu país para não ser morto.  João Vitor era filho de baiano com uma pernambucana, tinha uma testosterona natural dos nordestinos, mesmo nascendo em São Paulo, tinha calor correndo pelo sangue.

As conversas fluíram muito rápido, Muhammed prezava pela boa comunicação, além de ser muito desconfiado, talvez pelo fato de ter fugido de um país, onde vizinhos e familiares poderiam se revelar como o seu mais cruel inimigo.

Muhammed e João Vitor foram se conheceram no Parque do Ibirapuera. Parecia um sonho para Muhammed, finalmente ele estava em paz, seguro e com alguém que ele poderia amar. No final daquela tarde, depois de caminharem de mãos dadas pelo parque e tomaram sorvete, envolvidos pela vista do pôr do sol proporcionada pelo lago, Muhammed pediu João Vitor em namoro. João Vitor não disse sim, mas também não disse não, apenas respondeu com um beijo e disse que ele era um dos seus melhores presentes.

Foi numa das infinitas conversar que tudo ruiu, ou quase ruiu. Muhammed perguntou para o João Vitor se ele já tinha feito "trio". João Vitor sem entender o questionamento, pediu explicações, até descobrir que o "trio" se tratava de "sexo à três". João Vitor pensou em responder qualquer coisa, mas optou pela sinceridade e disse "sim". Muhammed desolado respondeu que era difícil achar alguém sério no Brasil e que todo mundo já havia feito "trio".

A imagem do "trio" não saia da cabeça de Muhammad, como ele poderia amar uma pessoa que já fez "trio"? João Vitor tentou argumentar, disse que tudo o que ele viveu o transformou naquele homem que o amava, mas Muhammad estava convicto de que homem que faz "trio" não era homem para ele.  

João Vitor fez uma proposta para Muhammed e sugeriu um último encontro e se após este encontro a imagem do "trio" ainda atormentasse a cabeça de Muhammed, cada um seguiria o seu destino e assim foi feito. 

Eles foram num motel, pois apesar de Muhammed ser resolvido, ele vinha de uma cultura muito reprimida, o sexo ainda não havia acontecido entre eles. Tudo foi louco e intenso, ambos transaram como duas cadelas no cio, parando apenas para tomarem banho e fumar um cigarro.  

Quando sairiam do motel, João Vitor perguntou se a imagem do "trio" havia saído da cabeça de Muhammed. Ele muito triste respondeu que não e que ambos deveriam ser apenas amigos. João Vitor não ficou triste, mas também não ficou alegre. Ele perdeu Muhammed, mas poderia pintar, quando chegasse em sua casa, um mapa de colorir afixado na parede do seu quarto, contornando as delimitações da Síria. A marcação seria num tom verde claro, mas a esperança de se tornar um verde escuro era muito grande

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Paqueras Liquidas

A paquera para o ser humano é o equivalente a dança do acasalamento para outras espécies, aquele momento de tudo ou nada, onde em alguns instantes saberemos se seremos ou não agraciados pela concessão da copulação com a presa almejada. 
Segundo o dicionário “paquera” significa o “ato ou efeito de paquerar, tentativa de namoro, paquerador”.

Os recursos visuais e gestuais sempre foram aliados de uma boa paquera. Dizem que ao passar por uma pessoa pela rua, quando os olhares se cruzaram, bastam apenas três segundos para ela olhar pra trás e confirmar o interesse.

Algumas paqueras servem apenas para massagear o ego, tem pessoas que passarão a vida inteira cruzando por outras pessoas nas ruas e olhando para trás, mas a ação de parar, observar e chegar no alvo, é um ato de coragem. Numa fase do ápice do amor liquido, qualquer atitude sem o recurso de alguma tecnologia, é um ato inovador. 

Após o expediente, como era de costume, Luís Fernando saiu do trabalho e foi para a faculdade. Pegava todos os dias o ônibus que seguia para as Perdizes, ali mesmo na Paulista com a Consolação. As 18h30m o movimento era intenso, vários ônibus parando no ponto, pessoas correndo para embarcar, se esbarrando com as pessoas que desembarcava. 

No meio daquele vai e vem de pessoas, Luís Fernando avistou um homem barbudo – não tanto quanto ele – parado, como se estivesse em câmera lenta, não sendo abalado pela agitação social que São Paulo passa para todos os seus filhos. Os dois se olhavam em meio à multidão, tentando descobrir um meio de se aproximarem, mas impedidos pela penetração dos olhares, que deixou ambos constrangidos. 

O ônibus do homem barbudo encostou na plataforma, Luís Fernando avistava o homem seguindo seu destino, mas preocupado com quem vinha atrás, preocupado se Luís Fernando também seguiria o mesmo destino.

Com o ônibus partindo, Luís Fernando ficou procurando o homem barbudo dentro do ônibus, o olhar que momentos antes era de esperança, transformou-se em despedida... até lembrar-se que naquela mesma tarde ele havia baixado um aplicativo de celular, esses que cruzam pessoas com localizações, onde a paquera rola de forma não presencial. Luís Fernando era o terceiro da lista, estava lá com aquela barba farta e sorriso fechado, exatamente que forma que atraiu o outro homem barbudo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Participe do livro "Orgias Literárias da Tribo"

Se você gosta de escrever, tem mais de 18 anos, reside no Estado de São Paulo e faz parte assumidamente de uma das siglas LGBT – Gays, Lésbicas, Bissexuais ou Transgêneros – você pode ser um dos 10 novos autores selecionados pelo escritor Fabrício Viana para compor o livro "Orgias Literárias da Tribo" - Nosso dia dia, desejos e sentimentos. Para isso, entre no site do projeto, leia as regras, preencha a ficha de inscrição e envie suas produções literárias.

O livro é resultado de um projeto criado pelo escritor Fabrício Viana e que conta com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, da Secretaria de Estado da Cultura e da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo - Programa de Ação Cultural - 2013.

A obra terá contos, poesias e diversos textos ligados ao tema “Nosso dia a dia, desejos e sentimentos” da comunidade LGBT. A seleção dos 10 autores será feita priorizando as produções literárias inéditas e também a sua sinergia e originalidade com o tema proposto.

O período para a entrega do material vai do dia 08/01/2014 até 06/02/2014. Após o término, será publicado no site em até 15 dias corridos a lista dos 10 autores escolhidos. 

Cada autor um receberá 10 livros pela cessão de direitos autorais, participará de dois eventos em São Paulo – um deles é a noite de autógrafos - e terá seu livro comercializado nas principais redes literárias do país, inclusive em alguns comércios específicos da comunidade LGBT. Diferente de algumas coletâneas produzidas no mercado literário, não será cobrado nenhum valor de participação ou para os autores selecionados.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Meu livro favorito em 2011 [Meme das Antigas - 2011]


Li pouquíssimos livros nesse ano, a rotina de trabalho durante o dia e muitos eventos durante a noite que temos na Secretaria da Cultura, não é fácil. Mas um livro que gostei muito e que foi lançado pela Imprensa Oficial e com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura foi o livro “Com a Palavra Luiz Gama – Poemas, artigos, cartas, máximas, da professora Ligia Fonseca Ferreira.

O livro reúne, pela primeira vez, cerca de 40 textos integrais de Gama, muitos deles inéditos. O volume traz também por um conjunto de artigos e ensaios a ele dedicados por seus contemporâneos. Divide-se em 6 capítulos, cada um deles introduzido por um texto explicativo da autora. Nos três primeiros estão reunidos os poemas, os artigos e cinco cartas endereçadas ao filho e a amigos de Gama. O quarto capítulo traz uma seleção de artigos veiculados na imprensa paulista com a repercussão da sua morte, ocorrida em 24 de agosto de 1882.

Uma seleção de textos sobre Luiz Gama, escritos por personalidades como os futuros fundadores da Academia Brasileira de Letras Lúcio de Mendonça e Valentim Magalhães, aprofunda um pouco mais aspectos de sua personalidade, de seu engajamento na luta pela igualdade e pelos direitos civis, de sua atuação política e de sua generosidade com as causas sociais. Através das máximas que encerram o volume, os leitores terão a oportunidade de descobrir mais um aspecto desconhecido de Luiz Gama que nos legou, igualmente, reflexões filosóficas e morais sobre temas que atravessam os tempos. O livro contém ainda mais de 30 ilustrações.

Este post faz parte do #MemeDasAntigas!!! Um balanço feito entre blogs do ano que está terminando! Quer participar? Visite este post, veja como e junte-se a nós! Não se esqueça de avisar nos comentários para que eu possa incluí-lo na lista dos participantes!

São eles: Hally Rocker do Mode On/Off, Renata Becker do Oui, Madame, André "Hipotermia" Sobreiro, Érica Lopes, Lilian do Lá no Cafofo, Ana do Organizando o Caos, Larissa Bohnenberger do O Elemento Fogo, Marcos Rodrigo do Eh Bien..., Evy do Pensamentos Perdidos, Juli_Chan do Hitomi Nyu, Cássia Alves do Busca de Sentidos, Regiane do Pequenas Coisas da Rê, Kel Sodré do Armário de Coisinhas, DaniSohDani do Só Lendo, Marcos Freitas do Passageiro do Mundo, Natalia Máximo do Caleidoscópio Dental, Mah Kaori do MahMind, Rafaela Marinho do Meus Vários Mundos, Janna do Livros Pura Diversão, Cintia Ribeiro do Free To Be Me, Nilza Borba do Pele sem Flor, Ana Carolina do Seis Milênios, Nita do Falando sobre Livros, Sam Shiraishi do A Vida Como A Vida Quer, Nara do Minha Fábrica de Sonhos, Camila Batista do It's not too Late, Neyara do Capsula de Banca, Lila Ricken do A Luz Difusa do Abajur Lilás, Letícia do A Garota e Seus Livros, Eve Ramos do Coisinhas, Mog do Mog Universitária... vai comentando aí (com o link, please) que eu vou colocando aqui!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Das Vantagens de Ser Bobo

Em 12 de setembro de 1970, Clarice Lispector escreveu um breve tratado sobre as vantagens e desvantagens de ser bobo. Num texto de simplicidade poética, ela descreve a alma do inocente:

- O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

- O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

- Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

- O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.

- Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

- O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.

- O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoievski.

- Há desvantagem, obviamente: Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

- Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

- O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.

- Aviso: não confundir bobos com burros.

- Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?"

- Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

- Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

- Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

- O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

- Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

- Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.

- Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

- Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

- Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cimas das casas.

- É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Apologia ao Inferno

- Eu já me decidi, vou para o inferno – disse o senhor com os olhos vibrantes ao agente do além.

- Mas senhor, você teve uma vida digna na terra, nunca fumou, nunca bebeu, teve apenas uma mulher, criou o seu filho com dignidade e outra, não posso deixá-lo ir para o inferno, pois o seu nome está escrito no livro da vida – disse o agente assinalando o livro.

- É exatamente por isso que quero ir para o inferno, na Terra eu não me diverti, não bebi, não transei de forma desvairada e não me droguei – disse o senhor se exaltando – E outra, eu não sei cantar, me disseram que no céu cantaremos louvores celestiais por toda a eternidade – completou definindo a sua escolha.

- No inferno há temor e ranger de dentes, a situação lá não é tão amena como dizem na Terra – disse o agente com os olhos fixos.

- Bobagem, meu filho usava ecstasy, ele também tinha esse ranger de dentes, os médicos chama isso de bruxismo, mesmo tento isso, o filho da puta, nada contra a minha mulher, nunca parou de usar a tal “droga do amor” – disse o senhor com saudosismo nos olhos – Eu, ignorante, tapado e inflexível, bati no coitado quando encontrei uma série dessas pílulas poderosas em meio às coisas dele e outra, ainda contei para o Pastor da comunidade que passou a fazer visitas semanais em minha residência, tornando a vida do menino um inferno – confessou o senhor com lágrimas nos olhos.

- E isso foi o certo, em vida, o senhor foi detentor da moral e dos bons costumes, nada mais justo que ganhe a vida eterna diante de Deus e seus anjos – argumentou o agente.

- Nada disso, certa vez eu vi o desgraçado chegando a casa. Você acredita que ele fez sexo com a cadeira, fiquei com inveja dele, estava casado há quase 30 anos e mal conseguia fazer sexo com a minha esposa e o desgraçado fez sexo com a cadeira, ele merece o céu, pois soube se divertir na Terra – concluiu.

- É, mas o nome dele não consta do livro da vida, se o seu filho não mudar de vida e não se adequar aos padrões morais pré-estabelecidos pela Santa Igreja, ele irá diretamente para o inferno, sem opção alguma de revogação da decisão divina – disse o agente.

- Esse é mais um dos motivos para ir ao inferno, nunca fui um bom pai, não entendia o “barato” do meu filho, ele curtia “baladas”, eu ia para a igreja, ele tomava uma cerveja e eu ficava no refrigerante... Não vi o meu filho crescer, não tive tempo para isso, os afazeres da comunidade tomavam o meu tempo, ajudava a todos, mas deixava o meu filho para segundo plano – disse o senhor com lágrimas nos olhos – Quero ter uma segunda chance de ser um bom pai, nem que para isso eu tenha que ir para o inferno – concluiu de forma autoritária dando um soco na mesa.

- Senhor, cada uma é responsável por si só. Se o seu filho caminha para o inferno, deixe-o ir por ele mesmo, entre logo e goze dos prazeres do paraíso – disse o agente tentando apaziguar a situação.

- Não, não mesmo. Você chamam de “gozar os prazeres” do paraíso cantando louvores eternamente? Não mesmo, eu já tive uma vida muito chata na Terra, quero curtir a minha morte, quero extravasar e sei que no céu serei recriminado e outra, sei que a desgraçada da Maria irá para o céu, foi difícil conviver os quase 40 anos com ela, não quero nem imaginar como será viver a eternidade inteira ao lado dela... Não quero, está decidido, vou para o inferno.

- Eu não permitirei que o senhor faça isso, entre no céu agora mesmo, lugar que é seu por direito – disse o agente alterando a voz e pegando no braço do senhor.

- Eu já disse que não “caralho”, vou para o inferno e ponto final, qual é a parte que você não entendeu? - perguntou tentando se esquivar do agente.

- O seu nome está na lista e terá que ingressar pelos portões – disse apontando para os arcos celestiais.

- Está bem, se o problema é o nome, eu risco o nome e pronto – disse o senhor tomando a caneta da mão do agente.

- Há, há, há, não adianta, nada pode ser modificado no livro, foi escrito com uma caneta celestial, essa é apenas uma bic de fabricação terrena – disse o agente com tom de deboche – Agora vá, saia da minha frente. Você faz idéia de quantas pessoas estão esperando por essa triagem e o senhor está aqui atrapalhando o meu trabalho. Vá – gritou o agente enquanto dois anjos celestiais de 2 cabeças e 7 braços conduziam o pobre senhor para os portões celestiais.

- Solte-me, eu não quero ir para o céu, solte-me, deixe-me ir para o inferno, deixe-me viver minha eternidade da forma que eu bem entender, solte-me – gritava o senhor.

- Cada um tem o inferno que merece, tenha uma boa estada no céu – disse o agente acenando para o pobre senhor que foi condenado a viver sua eternidade cantando ao lado de Maria, que um dia jurou amor eterno.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Estranhamento Religioso

Tudo começou com uma conversa informal, entre amigos. Estávamos no escritório de um amigo que é médico, entre os presentes estava a Márcia, que se defini como Bruxa, mas sempre acrescenta que é uma Bruxa do bem. Márcia sempre teve um poder hipnotizador, sempre me surpreendi com o seu olhar dissimulado que tem muito a dizer, ela poderia falar com qualquer pessoa, expressar qualquer sentimento com aquele olhar morto e dissimulado. Sua beleza estava completamente fora dos padrões pré-estabelecidos pela sociedade, ela tinha seios firmes e avantajados, pernas longas e bem torneadas, boca carnuda e um olhar mórbido, encontrávamos em seu rosto as olheiras mais escuras que eu já presenciei. Aquele olhar reservava muitos mistérios, escondia alguma coisa. Hoje tenho certeza que tudo o que ela tinha, foi conquistado por aquele olhar, apesar dela fazer o tipo “mulherão” e conseguir todos os homens que desejava, ela causava arrepios, mas tudo era amenizado com um simples olhar, com aqueles olhos medonhos envolto por aquelas horríveis olheiras.

Todos da nossa turma estavam passando por momentos difíceis, aliás, sempre em alguma área da nossa vida estamos passando por algum dissabor. Eu acabara de sair de um relacionamento; meu amigo médico estava solteiro há um bom tempo e se sentia muito carente; a Isabela não estava satisfeita com a sua vida familiar; o Léo amava sem ser correspondido; a Márcia (cartomante), apesar de estar sempre com um homem diferente, também não estava satisfeita com a vida sentimental e a Estela estava passando por sérios problemas financeiros. Todos, em comum acordo resolvemos ver o que o baralho cigano preveria para as nossas vidas, a Márcia jogaria as cartas para todos e a Estela veria a previsão da Márcia na borra de café. Ficamos animados, mexer com o futuro. Brincar de ser Deus e ter a oportunidade de manipular o destino é uma idéia fascinante.

Cada um ficou incumbido de levar uma oferenda ao santo. Levamos velas coloridas, cigarros, incenso, dinheiro e xícaras. Em todos os cantos foram distribuídos os cigarros e incensos, os cigarros foram equilibrado em pé e em seguida foram acessos. No banheiro também foram colocados incenso e cigarros, pois foi dito que é no banheiro que se concentram os “espíritos sujos”, achei graça com essa colocação, mas parei de ri imediatamente quando a Márcia me repreendeu com o seu olhar, fiquei com medo, aliás, essa foi a primeira e ultima vez que tive medo da Márcia. Senti aquele olhar me alfinetando e dizendo que ali era território dela e era ela quem falava e dava as regras, logo em seguida o olhar se calou e continuamos preparando as oferendas. A Márcia forrou a mesa com um pano roxo e também acendeu velas e incenso próximo ao baralho e colocou algumas moedas ao lado como oferta ao santo. Os preparativos estavam prontos e o “jogo” já poderia começar.

O Léo estava muito inquieto com os seus conflitos e deixamos que ele fosse o primeiro na leitura das cartas, a Márcia contou algumas características de sua vida pessoal, e ele confirmou serem verdadeiras e disse que quanto a sua vida sentimental, outras vivências estavam sendo reservadas para ele e o que passou não voltaria mais; depois do Léo, foi a minha vez, ela também disse que o que passou teria que ficar no passado, mas que ela via uma reaproximação em minha vida sentimental e caminhos largos de prosperidade, a reaproximação aconteceu, os caminhos largos de prosperidade, aguardo até hoje. A vida sentimental do Fernando, também pertencia ao passado, a Isabela teria paz somente quando se desvinculasse da sua família e a Estela travaria mais algumas batalhas na sua vida profissional e financeira.

Quando a Márcia estava lendo o baralho para a Estela, ela recebeu uma “entidade”, era a “pomba-gira”. A Estela colocou uma cadeira no meio da sala e mandou que todos fizessem um circulo em volta da Márcia. Não sei o porquê ela recebeu a entidade, se foi espontâneo ou provocado, aliás, não faço a mínima idéia de como uma pessoa recebe uma entidade, se existem fatores que contribuem para isso, creio que sim. Durante a leitura das cartas para a Estela, ela mandou que abríssemos a porta do banheiro e a porta da área do escritório, disse que uma corrente de ar quente entraria pela varanda e seguiria para o banheiro e sairia do banheiro uma corrente de ar frio indo para a varanda, ela disse que essa corrente era os maus espíritos indo embora, ela mal fechou a boca, eu senti aquele ar quente vindo daquela noite fria e sombria, aquele ar subiu pelas minhas pernas, queimou o meu estomago e subiu para minha cabeça deixando-me cego e desnorteado por alguns segundos, logo após levei um choque térmico com o ar frio saindo do banheiro, meu corpo endureceu e novamente perdi os sentidos por alguns segundos. Notamos que os cigarros acessos nos cantos estavam queimando e a pontas não cairam, as cinzas permaneciam em pé, e foi assim com todos os cigarros queimados. Quando o espírito foi recebido, ela estava lendo as cartas para a Estela, não sei se o fato da Estela também ser espírita, da mesma religião que ela, contribuiu para o ocorrido. Creio que sim, pois Estela se sentia satisfeita, realizada.

O rosto da Márcia ficou “desconfigurado”, sua voz ficou rouca, parecia ser de uma mulher bem mais velha e o português já não era o utilizado por ela, na norma culta, ela falava muitas palavras erradas, os erros eram grotescos. A “pomba-gira” pediu bebida e não tínhamos nada, o “espírito” ficou decepcionado, como se fosse um absurdo não termos bebida, a Estela desesperou-se e ofereceu cigarro, ela aceitou. Depois chamou um por um no meio da roda e deu um recado para cada um, e quando fazíamos alguma pergunta, ela dizia para perguntarmos ao “cavalo”, depois soube que “cavalo” é o dono do corpo que o “espírito” está fazendo uso. A Estela ficou batendo palmas e estralando os dedos acima da cabeça da Márcia, em dado momento uma corrente que estava no pescoço da Estela se rompeu e caiu no chão, ela disse que aquele foi um presente de uma pessoa indesejada e ela não sabia o que fazer para se livrar dele, ela comemorou, dizendo que agora estava livre do presente. A Márcia começou a se sentir mal, a Estela começou a bater palmas mais fortes e estralar os dedos com mais intensidade, além de emitir um ruído no ouvido da Márcia, depois de alguns minutos o espírito foi embora e ela quase caiu. Ela pediu para ajudarmos ela voltar para frente do baralho senão os olhos dela se fechariam e ela não veria mais nada, então, ela terminou de ler as cartas para a Estela.

Para cartomante, a Estela leu a borra de café. Ela colocou pó de café e água, depois retirou a água e formou-se a borra, naquele desenho que se formou na xícara, estava à previsão da Márcia, que não era satisfatória para a sua vida sentimental. Terminada a leitura, retiramos tudo o que foi usado no trabalho, pontas e cinza de cigarro, moedas, incensos e velas e fomos para uma encruzilhada. Na encruzilhada colocamos todos aqueles resíduos no meio da rua e as xícaras foram arremeçadas ao centro. Quando estávamos indo embora, a Estela disse para observarmos os nós que estavam sendo feitos e ela falava que tinha dó das pessoas que cruzassem os nossos caminhos, Márcia olhou para ela, foi um olhar que me deu arrepios e imediatamente Estela se calou. Eu não estava vendo nó algum, ninguém estava vendo e terminado o episódio, Márcia disse que a Estela exagerou e que não é habitual isso acontecer numa leitura de cartas. Márcia era uma bruxa do bem e depois desse episódio percebi que Estela era uma bruxa do mal.